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Durante décadas, o diagnóstico ultrassonográfico da espinha bífida pertenceu ao segundo trimestre — os sinais do “limão” e da “banana”. Hoje a fronteira recuou: a maioria dos casos de espinha bífida aberta já deixa pistas no exame de 11 a 13 semanas e 6 dias, no mesmo plano da translucência nucal.
Por Prof. Dr. Rafael Frederico Bruns — Medicina Fetal e Cirurgia Fetal
Este artigo é o mapa desses sinais, organizado para quem examina. Nota de quem escreve: meu mestrado na UNIFESP foi sobre marcadores de primeiro trimestre, e atuo também na ponta cirúrgica da mielomeningocele. Olho esses sinais dos dois lados — o do rastreio e o do desfecho. Por isso insisto, na rotina, que avaliar a fossa posterior no mesmo plano da translucência nucal deixou de ser refinamento e passou a ser parte do exame.
Um termo antes de começar: espinha bífida não é o mesmo que mielomeningocele
Vale fixar a nomenclatura, porque o artigo inteiro depende dela. Espinha bífida é o termo guarda-chuva para os defeitos de fechamento do tubo neural na coluna. Ela se divide em duas categorias com fisiopatologia e prognóstico distintos:
- Espinha bífida aberta (OSB, open spina bifida): tecido neural e/ou meninges expostos, sem cobertura cutânea íntegra. É a forma associada à malformação de Chiari II e aos sinais cranianos que catalogamos aqui. A mielomeningocele — saco contendo meninges e tecido neural — é a forma mais comum de espinha bífida aberta, ao lado da mielocele (sem cisto dorsal).
- Espinha bífida fechada (CSB, closed spina bifida): lesão recoberta por pele, com frequência lipomatosa. Em geral sem escape de líquor, sem Chiari II, e com anatomia craniana normal.
Ou seja: toda mielomeningocele é uma espinha bífida aberta, mas nem toda espinha bífida aberta é mielomeningocele — e nem toda espinha bífida é aberta. Os sinais cranianos abaixo marcam a OSB, não a espinha bífida em geral. Para a visão clínica e leiga do espectro completo, veja os tipos de espinha bífida, da forma oculta à mielomeningocele.
A espinha bífida aberta tem duas formas, definidas pela posição da placa neural em relação à pele: a mielomeningocele, em que a expansão do espaço subaracnóideo eleva a placa e forma um saco cístico; e a mielocele — sinônimo de mielosquise —, em que a placa fica rente à pele, sem saco. O termo raquisquise, da tradição embriológica, é usado de modo praticamente equivalente a mielosquise, com ênfase no defeito ósseo extenso. Uma ressalva de nomenclatura: boa parte da literatura, sobretudo neurocirúrgica, emprega “mielomeningocele” como termo abrangente para toda espinha bífida aberta, sem destacar a mielocele — que, de fato, é rara nas séries clássicas, já que a mielomeningocele responde por cerca de 98% dos casos. A distinção, porém, importa: o fechamento cutâneo da mielocele pode ser tecnicamente mais difícil, e há evidência de malformação de Chiari II mais grave nessa forma. A meningocele é entidade distinta — saco contendo apenas meninges e líquor, sem tecido neural, em geral recoberta por pele e, por isso, classificada entre as formas fechadas.

Por que os sinais existem: a malformação de Chiari II
Quase todo sinal craniano da espinha bífida é consequência de um único mecanismo encadeado. Na OSB, o líquido cefalorraquidiano (líquor) escapa pela lesão medular para a cavidade amniótica. A perda de líquor gera hipotensão no espaço subaracnóideo, que puxa o tronco encefálico e o cerebelo no sentido caudal — a malformação de Chiari II. O quarto ventrículo é comprimido e a cisterna magna, obliterada.
É essa cascata — escape de líquor → hipotensão subaracnóidea → herniação caudal da fossa posterior → compressão do quarto ventrículo → sinais cranianos — que explica por que conseguimos suspeitar de uma lesão da coluna olhando para a cabeça. No segundo trimestre ela aparece como limão e banana; no primeiro, como alterações sutis da fossa posterior.
A distinção clínica decisiva nasce daqui: na espinha bífida fechada, sem escape de líquor, não há Chiari II, e a fossa posterior costuma ser normal. Os marcadores cranianos tendem a estar ausentes, e a lesão é mais discreta. Vale a precisão: os sinais cranianos não se correlacionam com a espinha bífida em geral, e sim com a malformação de Chiari II típica das formas abertas.

Primeiro trimestre (11–13+6 semanas): a fronteira do rastreio precoce

Todos os marcadores abaixo aproveitam um plano que o examinador já obtém de rotina: o sagital mediano da face, o mesmo da medida da translucência nucal e do osso nasal. Avaliar a fossa posterior nesse plano é onde mora o diagnóstico precoce.
Translucência intracraniana (IT)
No plano sagital da face, o quarto ventrículo aparece como uma faixa anecoica — a translucência intracraniana (IT) — paralela à translucência nucal, delimitada à frente pelo tronco encefálico e atrás pelo plexo coroide do quarto ventrículo. Em fetos normais ela é sempre visível, e seu diâmetro ântero-posterior cresce de cerca de 1,5 mm (com comprimento cabeça-nádega, CCN, de 45 mm) para 2,5 mm (CCN de 84 mm). Na OSB, o quarto ventrículo é comprimido pelo deslocamento caudal do tronco, e a IT deixa de ser identificável. Foi a observação que abriu a era do rastreio precoce, na série inicial de 200 fetos normais e 4 com espinha bífida — em todos os afetados, a IT não era visível. (Chaoui et al., UOG 2009.)

Relação tronco encefálico / distância tronco-occipital (BS/BSOB)
No mesmo plano, mede-se a espessura do tronco encefálico (BS) e a distância da face posterior do tronco até o osso occipital (BSOB). No feto normal, o tronco é sempre mais fino que o espaço atrás dele — BS menor que BSOB. Na OSB, a relação se inverte: tronco alargado, fossa “apertada”, e a razão BS/BSOB passa de 1. É um dos marcadores mais consistentes: na série de 30 casos e 1000 controles, a razão esteve acima do percentil 95 em todos os casos, com o tronco acima do p95 em 96,7% e o BSOB abaixo do p5 em 86,7%. (Lachmann, Chaoui et al., Prenat Diagn 2011.)
Linha maxilo-occipital (linha MO)
Traça-se uma linha reta da borda superior da maxila até o occipício, no plano sagital. No feto normal de 12–13 semanas, a junção entre o mesencéfalo e o tronco fica acima dessa linha; na OSB, o deslocamento caudal joga essa junção para abaixo da linha. É uma referência de aquisição simples, agregada ao mesmo plano da TN. A evidência original é uma série menor — 14 casos confirmados e 100 controles —, com a ressalva honesta dos autores de que as taxas de falso-positivo e falso-negativo ainda precisam ser definidas em estudos maiores. Vale notar a coautoria brasileira (Araujo Júnior, Peixoto). (Ramkrishna, Araujo Júnior, Peixoto, Da Silva Costa, Meagher — J Matern Fetal Neonatal Med 2019.)
Crash sign
Diferente dos anteriores, o crash sign é de reconhecimento de padrão, não de medida — descrito por Fred Ushakov e colaboradores. No corte axial da cabeça, ao nível do mesencéfalo, busca-se o deslocamento posterior e a deformação do mesencéfalo contra o osso occipital. O nome vem da analogia com a traseira de um carro que bate na parede: com a queda de líquor, o espaço aracnóideo deixa de ser líquido e o mesencéfalo encosta no occipício, podendo estreitar o aqueduto de Sylvius. Na série multicêntrica original, esteve presente em 90,6% dos casos confirmados (48 de 53), sem nenhum falso-positivo nos controles — com a ressalva de ser estudo retrospectivo, conduzido por examinadores experientes em neurossonografia. (Ushakov et al., UOG 2019.)
Avaliar a fossa posterior como um conjunto
Na prática, nenhum marcador isolado fecha o caso. O que orienta é a leitura conjunta da fossa posterior — quarto ventrículo, cisterna magna, padrão de linhas entre o esfenoide e o occipício — somada, quando necessário, ao corte axial e à distância aqueduto-occipício. A mensagem operacional é simples: uma fossa posterior alterada no plano da TN deve disparar o exame dirigido da coluna. E vale a calibração honesta — IT e BS/BSOB são marcadores consolidados; outros achados são mais incipientes.
Sinal do polvo (octopus-like sign)
Descrito por Andreeva como desproporção dos “braços” da fossa posterior, com cisterna magna não visível entre 11 e 13 semanas. Sinalizo abertamente: a evidência é incipiente — relato/série de casos em plataforma de ensino (theFetus.net, 2013), sem grandes estudos prospectivos e sem indexação no PubMed. Entra aqui por completude, não como marcador estabelecido.
Segundo trimestre: os sinais clássicos (resumo)
Esta seção é deliberadamente curta — o conteúdo aprofundado já existe na rede, e o link concentra a autoridade na peça nova.
O sinal do limão é o escalopamento das bordas frontais do crânio, visível no plano transverso usado para a medida do diâmetro biparietal. É um marcador sensível e dependente da idade gestacional: presente em cerca de 98% dos fetos com OSB até 24 semanas, mas em apenas ~13% após 24 semanas, quando o crânio enrijece. O sinal da banana é a curvatura anterior dos hemisférios cerebelares com obliteração da cisterna magna — muito específico; quando não há banana, é comum o cerebelo “ausente”. Completam o quadro a cisterna magna obliterada, a ventriculomegalia e a redução do diâmetro biparietal e da circunferência cefálica. (Nicolaides & Campbell, Lancet 1986; Van den Hof et al., AJOG 1990; revisão didática em Thomas, Radiology 2003.)
No laudo, esses achados precisam ser traduzidos para a família com cuidado — tema que detalho em o que significa o achado de mielomeningocele no laudo.
Sinais diretos na coluna
Os marcadores cranianos levantam a suspeita; a coluna confirma e localiza. No corte axial, os centros de ossificação posteriores, normalmente paralelos, abrem-se em “V” ou “U”; há defeito ósseo, descontinuidade da pele e, com frequência, um saco cístico. Aqui a nomenclatura volta a importar: o saco contendo apenas meninges é uma meningocele; quando contém também tecido neural, é uma mielomeningocele. Como os sinais cranianos costumam ser mais fáceis de captar do que a própria lesão, eles funcionam como o gatilho que justifica a busca diligente pela coluna.
Aberta × fechada: como os sinais diferenciam
A distinção tem peso prognóstico — a forma fechada tem evolução, em geral, mais favorável — e é onde a leitura da cabeça mais ajuda. Numa série de referência de 57 casos com seguimento detalhado, os defeitos abertos foram 53 (93,0%) e os fechados 4 (7,0%). Os abertos estiveram invariavelmente associados aos sinais do limão e da banana; nos fechados, o crânio era normal. O líquido amniótico acompanhou o padrão: alfafetoproteína elevada nas formas abertas e dentro da normalidade nas fechadas. (Ghi et al., UOG 2006.)
| Espinha bífida aberta (OSB) | Espinha bífida fechada (CSB) | |
|---|---|---|
| Escape de líquor / Chiari II | Presente | Ausente |
| Marcadores cranianos (IT, BS/BSOB, limão, banana) | Geralmente presentes | Geralmente ausentes |
| Fossa posterior | Alterada | Em geral normal |
| Lesão | Sem cobertura cutânea | Recoberta por pele (frequentemente lipomatosa) |
| Alfafetoproteína (líquido amniótico) | Elevada | Normal |
| Detecção | Mais favorável | Mais sutil — pode escapar |
Duas ressalvas de honestidade clínica, que valem mais do que a regra: existe OSB com graus mínimos de Chiari II (rara, mas descrita), e a aparência do saco cístico não separa de forma confiável aberta de fechada — a parede do cisto na meningocele fechada pode ser indistinguível da mielomeningocele, sobretudo no meio da gestação. A consequência prática é direta: uma fossa posterior normal não exclui uma espinha bífida fechada, e não se deve tranquilizar a família com base apenas na cabeça. (Ghi et al., UOG 2006; conceito de disrafismo fechado também em Fratelli, Papageorghiou et al., Prenat Diagn 2007.)
Da suspeita ao plano: o que vem depois
Quando os sinais aparecem, o passo seguinte é a avaliação especializada — neurossonografia fetal para caracterizar a lesão e a fossa posterior, confirmação diagnóstica e aconselhamento. Em casos selecionados de OSB, abre-se a discussão sobre cirurgia fetal de mielomeningocele, cuja indicação depende de critérios específicos e foge ao escopo deste catálogo. Se a suspeita surgiu num exame de rotina, vale também o roteiro dos próximos passos após uma suspeita no ultrassom. O ponto aqui é o encaminhamento certo, no tempo certo.
Tabela-resumo dos sinais
| Sinal | Tri. | Plano | O que representa | Como avaliar | Evidência | Descrição |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Translucência intracraniana (IT) | 1º | Sagital | 4º ventrículo comprimido | Ausência da faixa anecoica | Consolidado | Chaoui 2009 |
| Relação BS/BSOB | 1º | Sagital | Deslocamento caudal do tronco | Razão maior que 1 | Consolidado | Lachmann 2011 |
| Linha maxilo-occipital (MO) | 1º | Sagital | Junção mesencéfalo-tronco rebaixada | Junção abaixo da linha | Emergente | Ramkrishna 2019 |
| Crash sign | 1º | Axial | Mesencéfalo contra o occipício | Reconhecimento de padrão | Emergente | Ushakov 2019 |
| Sinal do polvo | 1º | Fossa posterior | Desproporção da fossa | Cisterna magna não visível | Incipiente | Andreeva 2013 |
| Sinal do limão | 2º | Transverso | Escalopamento frontal | Contorno do crânio | Consolidado | Nicolaides 1986 |
| Sinal da banana | 2º | Suboccipital | Cerebelo curvado | Cisterna magna obliterada | Consolidado | Nicolaides 1986 |
| Sinais diretos | Ambos | Axial/sagital | Lesão da coluna | “V” + saco cístico | Confirmatório | — |
Perguntas frequentes
Referências
- Nicolaides KH, Campbell S, Gabbe SG, Guidetti R. Ultrasound screening for spina bifida: cranial and cerebellar signs. Lancet. 1986;2(8498):72-74.
- Van den Hof MC, Nicolaides KH, Campbell J, Campbell S. Evaluation of the lemon and banana signs in one hundred and thirty fetuses with open spina bifida. Am J Obstet Gynecol. 1990;162(2):322-327.
- Ghi T, Pilu G, Falco P, et al. Prenatal diagnosis of open and closed spina bifida. Ultrasound Obstet Gynecol. 2006;28(7):899-903.
- Chaoui R, Benoit B, Mitkowska-Wozniak H, Heling KS, Nicolaides KH. Assessment of intracranial translucency (IT) in the detection of spina bifida at the 11-13-week scan. Ultrasound Obstet Gynecol. 2009;34(3):249-252.
- Lachmann R, Chaoui R, Moratalla J, Picciarelli G, Nicolaides KH. Posterior brain in fetuses with open spina bifida at 11 to 13 weeks. Prenat Diagn. 2011;31(1):103-106.
- Ushakov F, Sacco A, Andreeva E, et al. Crash sign: new first-trimester sonographic marker of spina bifida. Ultrasound Obstet Gynecol. 2019;54(6):740-745.
- Ramkrishna J, Araujo Júnior E, Peixoto AB, Da Silva Costa F, Meagher S. Maxillo-occipital line: a sonographic marker for screening of open spina bifida in the first trimester of pregnancy. J Matern Fetal Neonatal Med. 2019;32(23):4073-4079.
- Thomas M. The Lemon Sign. Radiology. 2003;228(1):206-207.
- Fratelli N, Rich P, Jeffrey I, Bahmaie A, Thilaganathan B, Papageorghiou AT. Prenatal diagnosis of segmental spinal dysgenesis. Prenat Diagn. 2007;27(10):979-981.
- Andreeva E. Octopus-like sign for diagnosis of spina bifida at 11-13 weeks. theFetus.net, 2013. (Série de casos; fonte não indexada — citada como evidência incipiente.)
- Tortori-Donati P, Rossi A, Cama A. Spinal dysraphism: a review of neuroradiological features with embryological correlations and proposal for a new classification. Neuroradiology. 2000;42(7):471-491.
- Rufener SL, Ibrahim M, Raybaud CA, Parmar HA. Congenital spine and spinal cord malformations: pictorial review. AJR Am J Roentgenol. 2010;194(3 Suppl):S26-S37.
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