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Espinha bífida: os tipos, da forma oculta à mielomeningocele
Medicina Fetal 14 min de leitura

Espinha bífida: os tipos, da forma oculta à mielomeningocele

Dr. Rafael Bruns
Dr. Rafael Bruns MÉDICO · CRM-PR 18.582 / CRM-RS 58.559
· 14 min de leitura

Medicina Fetal · Espinha Bífida

Poucas palavras assustam tanto num laudo quanto “espinha bífida”. Mas há algo que quase nunca é dito logo no início: espinha bífida não é uma coisa só — é um espectro, que vai de uma forma oculta e leve até a mielomeningocele. Saber em qual ponto desse espectro o caso se encontra é o que define o que esperar.

Importante: este artigo é informativo e não substitui avaliação clínica individualizada. E vale dizer desde já: a maioria dos casos que levam alguém a pesquisar esse termo é da forma mais leve.

Se você acabou de ler esse termo — num exame seu, do seu bebê ou de alguém próximo — é natural que a primeira reação seja o susto e a vontade de entender tudo de uma vez. Este artigo explica os tipos de espinha bífida, o que diferencia um do outro e quando cada um merece atenção — sem alarmismo e sem minimizar o que de fato precisa de acompanhamento.

O que é espinha bífida

Espinha bífida é uma malformação congênita do tubo neural — a estrutura embrionária que, nas primeiras semanas de gestação, se fecha como um zíper para formar o cérebro e a medula espinhal. Quando uma parte da coluna não completa esse fechamento, fica uma abertura: é daí que vem o nome (do latim, “coluna em duas partes”).

O ponto central é este: a gravidade depende de o que ficou exposto por essa abertura. Em alguns casos, nada além de uma pequena falha óssea coberta por pele. Em outros, as membranas que envolvem a medula. Nos mais graves, a própria medula e os nervos. É exatamente essa diferença que separa os tipos — e o que veremos a seguir.

Os tipos de espinha bífida

Clinicamente, costuma-se descrever três formas principais — espinha bífida oculta, meningocele e mielomeningocele —, às quais se soma a lipomielomeningocele. Outra forma de agrupar ajuda a entender a gravidade: a forma oculta é fechada (coberta por pele, sem saco aparente), enquanto as formas císticas se apresentam com um saco visível na coluna, que reúne a meningocele e a mielomeningocele.

Espinha bífida oculta

É a mais comum e a mais leve. “Oculta” justamente porque a falha no fechamento é pequena, fica coberta por pele e não forma saco nem expõe tecido nervoso. Em grande parte dos casos não causa nenhum sintoma e é descoberta por acaso — num raio-x de coluna feito por outro motivo, por exemplo.

Para a maioria das pessoas, a espinha bífida oculta não tem qualquer repercussão neurológica: a vida segue normal e o achado é apenas uma curiosidade do exame. Em uma minoria dos casos, pode haver um pequeno sinal na pele sobre a coluna — uma covinha profunda, um tufo de pelos, uma mancha — que merece ser mostrado ao médico. Mas, como regra, é a forma que mais tranquiliza quando se entende o que ela é. Voltaremos a ela com mais calma adiante, porque é a dúvida que traz a maior parte das pessoas até aqui.

Meningocele

É uma forma intermediária, do grupo cístico. Aqui se forma um saco que se projeta pela abertura da coluna contendo meninges (as membranas que envolvem a medula) e líquido — mas, diferentemente da forma grave, sem medula ou nervos dentro do saco. Por isso a meningocele costuma ter prognóstico melhor que a mielomeningocele. Em geral exige correção cirúrgica após o nascimento, e o acompanhamento depois disso é individualizado.

Mielomeningocele

É a forma mais grave e mais conhecida. Nela, o saco contém não só as meninges, mas também a medula e os nervos, expostos. É a que traz maior repercussão neurológica e a que pode se associar à hidrocefalia. É diagnosticada ainda no pré-natal e, em casos selecionados, existe a possibilidade de tratamento antes mesmo do nascimento.

Como a mielomeningocele tem todo um percurso próprio — diagnóstico, decisão, critérios e tratamento —, reunimos isso em uma página dedicada, com profundidade que este artigo não pretende repetir: diagnóstico e tratamento da mielomeningocele.

Lipomielomeningocele

É uma forma coberta (fechada), em que um lipoma — um acúmulo de tecido gorduroso — se liga à medula através da falha na coluna, sob a pele. Por ser revestida, não há a exposição que se vê na mielomeningocele. Ainda assim, o tecido gorduroso pode tracionar a medula ao longo do crescimento (o que se relaciona à medula presa, explicada mais adiante), e por isso costuma exigir acompanhamento neurocirúrgico.

Comparação dos tipos de espinha bífida na coluna: normal, oculta, meningocele, mielomeningocele e raquisquise
Os tipos de espinha bífida em comparação com a coluna normal — incluindo a raquisquise, a forma mais extensa e rara do espectro. Ilustração: Dr. Rafael Frederico Bruns.

O que muda entre os tipos: gravidade e prognóstico

Olhar o espectro inteiro ajuda a colocar cada tipo no seu lugar. De um lado, a espinha bífida oculta, em geral sem qualquer repercussão. Do outro, a mielomeningocele, que pode trazer alterações motoras e de sensibilidade, mudanças na função da bexiga e do intestino e, em parte dos casos, hidrocefalia (acúmulo de líquido no cérebro) e outras alterações associadas no encéfalo.

Um fator pesa bastante no prognóstico das formas graves: o nível da lesão na coluna. Quanto mais alta a abertura, maior a região do corpo, abaixo dela, que pode ser afetada. Por isso dois casos com o mesmo nome podem ter evoluções muito diferentes — generalizar não ajuda ninguém.

Quando a hidrocefalia entra em cena na forma grave, ela tem um caminho próprio de avaliação e conduta, que detalhamos em hidrocefalia e derivação na mielomeningocele.

UM LAUDO DEIXOU DÚVIDAS?

Tirar dúvidas com o especialista

Se um laudo deixou você com mais perguntas do que respostas, uma conversa pode esclarecer em que ponto do espectro o caso se encontra.

Espinha bífida oculta: preciso me preocupar?

Esta é, provavelmente, a seção que mais gente veio procurar — e a resposta curta é tranquilizadora.

A espinha bífida oculta costuma ser um achado incidental: aparece num exame de imagem feito por outra razão, sem que houvesse qualquer sintoma. Ela não é “a espinha bífida grave das reportagens”; é uma variação anatômica leve e frequente, que na enorme maioria das vezes não exige tratamento nem muda a vida de quem a tem.

Existe um grupo pequeno de situações em que vale, sim, uma avaliação. A primeira são os sinais na pele sobre a coluna, sobretudo em crianças: uma covinha profunda, um tufo de pelos, uma mancha avermelhada ou um pequeno apêndice cutâneo. A segunda são sintomas que sugerem medula presa (síndrome do cordão preso) — uma condição em que a medula fica fixada e tracionada, podendo causar dor lombar, alterações urinárias, fraqueza ou dormência nas pernas, ou mudança no formato do pé. Nesses casos, investigar faz diferença. Fora deles, o tom é de calma: um laudo de “espinha bífida oculta” isolado, sem sintomas, raramente é motivo de preocupação.

Espinha bífida no adulto e ao longo da vida

Pessoas convivem com espinha bífida em todas as idades — e o que isso significa, de novo, depende do tipo. Nas formas leves, especialmente a oculta, a vida é normal; muitos adultos só descobrem que a têm por acaso, num exame feito por outro motivo, sem que isso tenha mudado nada.

Nas formas graves, o cuidado é de longo prazo e multidisciplinar: pode envolver neurocirurgia, ortopedia (para questões como escoliose), urologia e função da bexiga, fisioterapia e reabilitação para a mobilidade. Não se trata de promessas, e sim de um acompanhamento contínuo que busca a melhor qualidade de vida possível em cada fase. Os avanços no manejo dessas situações ao longo das últimas décadas ampliaram bastante as possibilidades — sempre de forma individual, caso a caso.

Como e quando cada tipo é descoberto

O momento e a forma de descoberta variam conforme o tipo, e essa diferença é importante.

A espinha bífida oculta, por ser leve e silenciosa, quase sempre aparece por acaso — num raio-x de coluna, e às vezes em exames mais detalhados como ressonância magnética ou tomografia, solicitados por outra queixa.

Já a mielomeningocele e as demais formas císticas costumam ser identificadas ainda no pré-natal, no ultrassom morfológico do segundo trimestre. Detalhamos esse processo em como a mielomeningocele é identificada no ultrassom. Além do ultrassom, níveis elevados de alfafetoproteína no sangue materno podem levantar a suspeita, a amniocentese é usada em situações selecionadas e a ressonância magnética fetal pode complementar a avaliação. Quando há suspeita de alteração no sistema nervoso do bebê, a avaliação do sistema nervoso fetal (neurossonografia) é o exame que aprofunda esse olhar.

Quando é a forma grave: o que existe de tratamento

Quando o diagnóstico, ainda na gestação, é de mielomeningocele, existem caminhos de tratamento — e é aqui que a conversa muda de tom. Além da correção cirúrgica nos primeiros dias de vida, em casos selecionados há a possibilidade de cirurgia fetal de mielomeningocele, realizada antes do nascimento.

Quem é candidato, como o procedimento funciona, quais são os critérios e o que a literatura mostra são temas que merecem profundidade própria — e estão reunidos na página dedicada, para não simplificar o que não pode ser simplificado. Se a cirurgia fetal não for a indicação para um caso específico, isso não encerra o cuidado: o acompanhamento e o planejamento do parto seguem, com a equipe orientando os próximos passos.

E se você acabou de receber uma suspeita no ultrassom e ainda está tentando entender o que fazer, há um guia pensado para esse momento: próximos passos após uma suspeita no ultrassom.

Prevenção: o papel do ácido fólico

A medida de prevenção mais estabelecida contra os defeitos do tubo neural — grupo ao qual a espinha bífida pertence — é a suplementação de ácido fólico (folato) no período que antecede e acompanha o início da gravidez. Ela reduz substancialmente, mas não elimina, o risco.

As recomendações oficiais orientam, para a maioria das mulheres, em torno de 400 mcg por dia (podendo chegar a 800 mcg), começando idealmente alguns meses antes de engravidar e mantendo no primeiro trimestre. Para mulheres com fatores de maior risco — como história familiar, uma gestação anterior afetada ou uso de certos medicamentos —, a dose recomendada é mais alta (na faixa de 4 mg por dia), sempre sob orientação médica.

Vale lembrar que outros fatores influenciam o risco e merecem atenção no pré-natal: diabetes materno mal controlado, uso de valproato (um anticonvulsivante) durante a gravidez, fatores genéticos e deficiências nutricionais como a de zinco. Nenhum deles é garantia de que algo vá acontecer — são peças que ajudam a calibrar o acompanhamento.

Quando procurar avaliação especializada:

  • Laudo de ultrassom com suspeita de alteração na coluna ou no sistema nervoso do bebê
  • Alfafetoproteína elevada no rastreamento pré-natal
  • Sinais na pele sobre a coluna da criança: covinha profunda, tufo de pelos, mancha ou pequeno apêndice
  • Sintomas que sugerem medula presa: dor lombar, alterações urinárias, fraqueza ou dormência nas pernas
  • Diagnóstico de mielomeningocele na gestação — quanto antes a avaliação, mais opções existem
  • Vontade de uma segunda opinião sobre um laudo que gerou dúvidas

Atendimento presencial em Curitiba e Porto Alegre. Teleconsulta disponível para pacientes de qualquer estado.

PRÓXIMO PASSO

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Uma avaliação completa, com tempo para examinar, explicar e responder, ajuda a entender exatamente em que ponto do espectro está o caso e quais são os próximos passos. Se você está em outra cidade ou quer rever um laudo antes de decidir qualquer coisa, a segunda opinião pode começar à distância, por telemedicina (Resolução CFM 2.314/2022).

Perguntas frequentes

O que é espinha bífida?
É uma malformação congênita do tubo neural — a estrutura que forma o cérebro e a medula nas primeiras semanas de gestação. Quando uma parte da coluna não se fecha por completo, surge a espinha bífida. Ela não é uma condição única, e sim um espectro que vai da forma oculta (leve) à mielomeningocele (grave).
O que pode causar espinha bífida?
As causas são múltiplas. A deficiência de ácido fólico é um fator importante e modificável. Somam-se a ele fatores genéticos, diabetes materno mal controlado, uso de medicamentos como o valproato durante a gravidez e deficiências nutricionais, como a de zinco. Na maioria dos casos, há uma combinação de fatores, e não uma causa isolada.
Quais são os tipos de espinha bífida?
A classificação clássica descreve três formas — espinha bífida oculta, meningocele e mielomeningocele —, a que se acrescenta a lipomielomeningocele. A oculta é a mais leve e fechada; a meningocele e a mielomeningocele são císticas (com saco visível); e a lipomielomeningocele é coberta por tecido gorduroso e pele.
Espinha bífida oculta é grave?
Na grande maioria das vezes, não. É a forma mais leve e comum, costuma ser descoberta por acaso e em geral não causa sintomas nem exige tratamento. A atenção se justifica em situações específicas, como sinais na pele sobre a coluna ou sintomas que sugerem medula presa.
Qual a diferença entre espinha bífida e mielomeningocele?
“Espinha bífida” é o termo guarda-chuva, que engloba várias formas. A mielomeningocele é a forma mais grave desse espectro, em que a medula e os nervos ficam expostos no saco que se projeta pela coluna. Ou seja: toda mielomeningocele é uma espinha bífida, mas nem toda espinha bífida é uma mielomeningocele.
Quem tem espinha bífida pode andar e ter vida normal?
Depende do tipo e, nas formas graves, do nível da lesão. Nas formas leves, como a oculta, a vida costuma ser plenamente normal. Nas formas graves, há pessoas que andam e pessoas que precisam de apoio para a locomoção; o acompanhamento multidisciplinar de longo prazo busca a melhor função e qualidade de vida possíveis em cada caso.
Quais são as sequelas da espinha bífida?
A forma oculta geralmente não deixa sequelas. Nas formas graves, as repercussões possíveis incluem alterações motoras e de sensibilidade nas pernas, disfunção da bexiga e do intestino, complicações ortopédicas como a escoliose e, em parte dos casos, hidrocefalia. A extensão varia muito de pessoa para pessoa.
Espinha bífida tem cura?
Depende do tipo. A oculta, em geral, nem exige tratamento. As formas graves não se “curam” no sentido de desaparecer, mas têm tratamento e acompanhamento que melhoram o prognóstico e a qualidade de vida. É mais correto falar em manejo e cuidado do que em cura — e qualquer decisão de tratamento deve ser individualizada.

Referências

  1. Recomendações oficiais sobre suplementação de ácido fólico na gestação (Ministério da Saúde / FIGO / CDC).
  2. ISUOG — diretrizes sobre avaliação do sistema nervoso central fetal no ultrassom.
  3. UpToDate — tópicos sobre defeitos do tubo neural e espinha bífida.
  4. Referências de neurocirurgia pediátrica sobre medula presa (síndrome do cordão preso).

Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica presencial ou por telemedicina com avaliação individualizada. Resolução CFM 2.314/2022 para menções a teleconsulta.

Dr. Rafael Bruns — Medicina Fetal

Autor

Dr. Rafael Bruns

Especialista em Medicina Fetal e Cirurgia Fetal. Realizou treinamento em cirurgia fetal a laser para STFF no Leiden University Medical Center (Holanda), com o Prof. Dick Oepkes, em 2015. Atende em Curitiba, Porto Alegre e por teleconsulta.