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TAPS gemelar: sequência anemia-policitemia em gêmeos monocoriônicos
Cirurgia Fetal 19 min de leitura

TAPS gemelar: sequência anemia-policitemia em gêmeos monocoriônicos

Dr. Rafael Bruns
Dr. Rafael Bruns MÉDICO · CRM-PR 18.582 / CRM-RS 58.559
· 19 min de leitura

Cirurgia Fetal · Gestação Monocoriônica

TAPS gemelar é a sigla em inglês para twin anemia-polycythemia sequence, traduzida em português como sequência anemia-policitemia. Uma complicação silenciosa das gestações gemelares monocoriônicas — em que um feto desenvolve anemia e o outro, policitemia, através de pequenas anastomoses placentárias — que pode passar despercebida sem Doppler especializado.

Importante: este artigo é informativo e não substitui avaliação clínica individualizada. O diagnóstico e o manejo da TAPS dependem de ultrassonografia especializada com Doppler, realizada em centro com experiência em medicina fetal.

Se você está acompanhando uma gestação gemelar monocoriônica e encontrou esse termo no laudo — ou se já passou por um tratamento a laser para STFF e ouviu mencionar TAPS no seguimento —, este artigo explica em detalhe o que está acontecendo, como se diagnostica e quais são as opções de conduta. O objetivo é que você termine a leitura com clareza sobre o que está em jogo e por que o acompanhamento especializado faz diferença.

O que é TAPS gemelar?

A TAPS é uma forma de transfusão feto-fetal crônica e lenta. Em todas as gestações de gêmeos monocoriônicos, existem conexões vasculares (anastomoses) que ligam as circulações dos dois bebês através da placenta compartilhada. Essas anastomoses podem ser superficiais (artério-arteriais ou veno-venosas, bidirecionais) ou profundas (artério-venosas, unidirecionais).

Na STFF clássica, anastomoses artério-venosas de calibre variável criam um desequilíbrio rápido de volume entre os fetos: o doador entra em oligoâmnio (pouco líquido amniótico) e o receptor em polidrâmnio (excesso de líquido). Na TAPS, o cenário é diferente. As únicas conexões funcionantes são muito pequenas — geralmente com diâmetro inferior a 1 mm. Por elas, o sangue passa do doador para o receptor de forma extremamente lenta, num volume estimado em apenas 5 a 15 mL por dia.

Esse fluxo lento tem duas consequências clínicas:

  • O doador desenvolve anemia fetal progressiva, com queda da hemoglobina ao longo de semanas.
  • O receptor desenvolve policitemia, com sangue mais viscoso e hematócrito elevado.
  • Mas nenhum dos dois cruza o limiar de volume necessário para causar discordância importante de líquido amniótico.

O resultado é uma síndrome silenciosa do ponto de vista das medidas convencionais — e que precisa de Doppler para ser identificada.

Qual a diferença entre TAPS e STFF?

Esta é a pergunta mais importante para entender por que a TAPS exige um olhar específico. Embora as duas condições ocorram em gestações monocoriônicas e envolvam anastomoses placentárias, o mecanismo, o que aparece no ultrassom e a forma de diagnosticar são distintos.

CaracterísticaSTFF clássicaTAPS
Principal desequilíbrioVolume e líquido amnióticoHemoglobina (anemia/policitemia)
Líquido amnióticoOligoâmnio no doador + polidrâmnio no receptor (sequência TOPS)Geralmente normal nas duas bolsas
Calibre das anastomosesVariável, frequentemente de médio calibreAnastomoses arteriovenosas muito pequenas (< 1 mm)
Forma de diagnósticoMedida do líquido amniótico + QuinteroDoppler da artéria cerebral média (ACM)
Quando suspeitarDiferença marcante de líquido entre as bolsasDiferença de velocidade no Doppler sem alteração de líquido
Pode ocorrer após laser?Laser é o tratamentoPode aparecer como complicação residual pós-laser
Comparação visual entre TAPS e STFF mostrando diferenças em mecanismo, líquido amniótico, calibre das anastomoses e forma de diagnóstico em gêmeos monocoriônicos
TAPS e STFF: duas formas distintas de transfusão feto-fetal em gêmeos monocoriônicos.

Esse ponto é central: um ultrassom obstétrico de rotina, sem Doppler especializado da artéria cerebral média, pode passar pela TAPS sem detectá-la. É por isso que toda gestação gemelar monocoriônica precisa de seguimento em centro com experiência em medicina fetal, idealmente quinzenal a partir das 16 semanas. A síndrome de transfusão feto-fetal e a TAPS exigem ferramentas diagnósticas parcialmente diferentes.

Por que a TAPS acontece em gestações monocoriônicas?

A explicação está na anatomia da placenta. Em gêmeos monocoriônicos, os dois territórios placentários se encontram numa linha imaginária chamada equador vascular. É ao longo dessa linha que ficam as anastomoses — e é a presença ou ausência de certos tipos delas que determina o que pode acontecer.

A literatura é clara nesse ponto. Estudos publicados pelo grupo do Leiden University Medical Center mostraram que placentas com TAPS espontânea têm um padrão muito específico: poucas anastomoses, todas pequenas, do tipo artério-venoso, e frequentemente sem anastomoses artério-arteriais (AA), que normalmente funcionariam como uma “válvula de equilíbrio” capaz de compensar pequenos desequilíbrios. Sem essa compensação, mesmo um fluxo lento e contínuo é suficiente para criar a discordância de hemoglobina ao longo do tempo.

Um estudo recente publicado em 2026, com a maior coorte já analisada de placentas de TAPS espontânea, mostrou ainda que existem alterações histológicas marcantes no parênquima placentário — maturação retardada no território do doador e maturação acelerada no território do receptor — sugerindo que cada feto está respondendo de formas diferentes a um estresse crônico (van de Sande et al., Placenta 2026). Não é por acaso que cerca de 60% dos doadores acabam com restrição de crescimento ao nascer, mesmo quando os territórios placentários têm tamanhos semelhantes.

Ou seja: a TAPS não é uma falha aguda — é uma microalteração circulatória que evolui em câmera lenta. E que, justamente por isso, precisa de um olhar específico para ser encontrada.

“Na TAPS, o fluxo entre os dois bebês é tão lento que apenas o Doppler revela o que está acontecendo — o líquido amniótico pode parecer absolutamente normal.”

Como a TAPS é diagnosticada?

O diagnóstico antenatal de TAPS é feito por Doppler da artéria cerebral média (ACM) dos dois fetos. A lógica é simples: o sangue do feto anêmico fica menos viscoso e circula mais rápido — por isso a velocidade de pico sistólico medida na ACM (MCA-PSV) sobe. O sangue do feto policitêmico, ao contrário, fica mais espesso e a velocidade tende a ficar mais baixa. Quando os dois padrões aparecem juntos, na ausência de discordância de líquido amniótico, o quadro é fortemente sugestivo de TAPS.

Os critérios mais utilizados hoje combinam dois parâmetros:

  • MCA-PSV do doador maior que 1,5 MoM (múltiplos da mediana esperada para a idade gestacional), indicando anemia fetal.
  • MCA-PSV do receptor menor que 0,8 ou 1,0 MoM, indicando policitemia.

Um critério mais moderno, publicado pelo grupo de Leiden em 2019 e utilizado em séries clínicas mais recentes, propõe usar o delta MCA-PSV — a diferença entre o valor do doador e o do receptor — maior que 0,5 MoM, com melhor sensibilidade para casos iniciais. Em qualquer caso, o que importa é que a medida da MCA-PSV passe a fazer parte do seguimento de toda gestação monocoriônica.

Após o nascimento, o diagnóstico é confirmado por três achados: uma diferença grande de hemoglobina entre os bebês (geralmente superior a 8 g/dL), uma razão de reticulócitos elevada no doador (sinal de que a medula óssea está respondendo a uma anemia crônica, não a uma perda aguda) e, idealmente, o exame da placenta com injeção de corantes, que documenta as pequenas anastomoses arteriovenosas características.

Análise clínica dos gêmeos com TAPS: receptor à esquerda com pele vermelha intensa (policitemia), doador à direita pálido (anemia), ambos com tamanho corporal semelhante
Os mesmos gêmeos da foto de abertura, agora analisados clinicamente: à esquerda, o receptor — pele vermelha intensa pela policitemia (sangue mais espesso, hematócrito alto); à direita, o doador — pele pálida pela anemia. Crucialmente, os dois têm tamanho corporal semelhante — sinal que diferencia a TAPS da STFF clássica, onde o doador costuma ser muito menor.

O mesmo princípio do Doppler da ACM é usado em outros contextos da medicina fetal — pode aprofundar em como o Doppler da artéria cerebral média detecta anemia fetal.

A história da TAPS: de Esaú aos bebês do castelo de 1617

A história da TAPS como entidade clínica é curta — foi descrita formalmente por Enrico Lopriore e colaboradores apenas em 2007 (Placenta, 28:47-51). Mas a condição em si provavelmente existe há tanto tempo quanto a humanidade.

Em 2000, um grupo de pesquisadores do Leiden University Medical Centre olhou para um quadro holandês de 1617 — De Wikkelkinderen, “As Crianças Enroladas” — e propôs que os dois bebês retratados, do mesmo tamanho mas com colorações opostas (um vermelho, um branco), tinham morrido provavelmente de transfusão feto-fetal. Quando o conceito de TAPS foi formalizado sete anos depois, ficou claro que aquele padrão — bebês de tamanhos semelhantes mas com discordância extrema de coloração e hemoglobina — é exatamente o que a TAPS produz, e não a STFF clássica.

De Wikkelkinderen (As Crianças Enroladas), pintura holandesa de 1617 mostrando dois recém-nascidos gêmeos com colorações opostas — um vermelho e outro pálido — do mesmo tamanho, padrão hoje reconhecido como TAPS
De Wikkelkinderen (As Crianças Enroladas), 1617. Os dois bebês têm o mesmo tamanho corporal mas cores opostas — um vermelho intenso, outro pálido. Berger et al. (Lancet, 2000) propuseram tratar-se de transfusão feto-fetal; quando o conceito de TAPS foi formalizado em 2007, ficou claro que esse padrão (tamanhos iguais + discordância extrema de coloração) é característico da TAPS — e não da STFF clássica, onde o doador seria visivelmente menor. Domínio público, Rijksmuseum / Muiderslot, Muiden.

O mesmo raciocínio se aplica à descrição bíblica de Esaú e Jacó em Gênesis 25: Esaú nasceu “todo vermelho” e Jacó, em seguida, pálido. Como observei em outro artigo, é uma hipótese clinicamente plausível — e que se encaixa melhor na TAPS do que na STFF.

A história completa, com as referências e as ilustrações do quadro e do manuscrito bíblico, está em Da Bíblia ao laser: a história da síndrome de transfusão feto-fetal.

AVALIAÇÃO ESPECIALIZADA

Está acompanhando uma gestação gemelar monocoriônica?

O seguimento adequado faz diferença real no que é possível detectar — e tratar — a tempo.

TAPS pode acontecer depois do laser para STFF?

Sim — e essa é uma das razões pelas quais o seguimento pós-laser precisa ser tão cuidadoso quanto a indicação cirúrgica.

Curiosamente, a TAPS era considerada rara antes da era do laser. À medida que a cirurgia fetoscópica se tornou padrão-ouro para STFF a partir do estudo de Senat (NEJM 2004), centros começaram a documentar uma complicação tardia que antes mal aparecia nos dados: pequenas anastomoses residuais criando transfusão crônica entre os gêmeos. O sucesso do laser, paradoxalmente, gerou a necessidade de descrever uma nova síndrome — e foi exatamente isso que Lopriore, Oepkes e colaboradores fizeram em 2007.

A cirurgia a laser para STFF tem como objetivo coagular todas as anastomoses placentárias entre os territórios dos gêmeos, separando definitivamente as duas circulações. Na técnica seletiva clássica, o cirurgião identifica cada anastomose visível na superfície da placenta e a coagula uma a uma. O problema é que anastomoses muito pequenas — abaixo de 1 mm — podem escapar à visualização durante a fetoscopia. Elas são pequenas demais para causar STFF recorrente, mas suficientes para criar uma transfusão lenta — exatamente o padrão da TAPS.

Essas anastomoses residuais costumam estar na periferia da placenta, onde o acesso fetoscópico é tecnicamente mais difícil — o ângulo de entrada do trocarte e a curvatura da parede uterina limitam o campo de visão da câmera, e nem todo o equador vascular fica igualmente acessível à coagulação seletiva. Estudos europeus mostraram que a TAPS pós-laser pode acontecer em cerca de 13% dos casos quando se usa a técnica seletiva (Robyr et al., Am J Obstet Gynecol 2006). Uma curiosidade clínica importante: no TAPS pós-laser, costuma ser o antigo receptor que se torna anêmico, e o antigo doador que se torna policitêmico — uma inversão em relação à STFF original.

Foi para reduzir esse risco que o mesmo grupo de Leiden desenvolveu a técnica de Solomon: em vez de coagular apenas as anastomoses visíveis, faz-se uma linha contínua de laser ao longo de todo o equador vascular, fechando também as conexões minúsculas que escapariam à visualização direta. O ensaio clínico publicado no Lancet em 2014 mostrou que a técnica de Solomon reduziu a incidência de TAPS pós-laser de 16% para 3%.

Realizei o treinamento em cirurgia fetal a laser para STFF no Leiden University Medical Center em 2015, com o Prof. Dick Oepkes — um dos autores do estudo de Solomon. Desde então, é essa a técnica que utilizo. Não por preferência estética, mas porque os dados convencem: fechar a equatorial inteira reduz a chance de complicações residuais como TAPS recorrente.

Dr. Rafael Bruns recebendo certificado do Prof. Dick Oepkes no Leiden University Medical Center após treinamento em cirurgia fetal a laser para STFF — grupo que descreveu a TAPS em 2007 e desenvolveu a técnica de Solomon publicada no Lancet em 2014
Dr. Rafael Bruns recebendo o certificado do Prof. Dick Oepkes — Leiden University Medical Center, 2015. Grupo que descreveu a TAPS em 2007 e publicou o ensaio SOLOMON em 2014.

Mesmo com a técnica de Solomon, porém, o seguimento pós-laser inclui medidas semanais ou quinzenais da MCA-PSV. A TAPS pode aparecer dias ou semanas depois do procedimento — e detectá-la cedo amplia as opções de manejo.

Quais são os riscos da TAPS?

A gravidade da TAPS depende de quanto avança a anemia no doador e a policitemia no receptor — e de em que idade gestacional o quadro é identificado.

Para o doador, a anemia progressiva pode levar a sofrimento fetal, hidropisia fetal (acúmulo de líquido nos tecidos por insuficiência cardíaca) e, em casos graves não tratados, ao óbito intrauterino. A literatura também mostra que cerca de 60% dos doadores de TAPS espontânea nascem com restrição de crescimento, o que pode estar associado às alterações placentárias específicas descritas na coorte mais recente de Leiden.

Para o receptor, a policitemia aumenta a viscosidade sanguínea, com risco de complicações neurológicas, cardiovasculares e, no período neonatal, hipertensão pulmonar persistente. Após o nascimento, o doador costuma necessitar de transfusão sanguínea e o receptor, de transfusão parcial de troca para reduzir o hematócrito.

A TAPS também tem sido associada a maior risco de comprometimento neurológico no longo prazo, em particular nos doadores com casos mais graves ou diagnosticados tardiamente. É um dos motivos pelos quais o diagnóstico precoce muda o que é possível fazer.

Estadiamento da sequência anemia-policitemia gemelar em cinco estágios baseado em Doppler da artéria cerebral média e sinais de comprometimento fetal
Estadiamento da TAPS: cinco estágios de gravidade progressiva (Slaghekke et al., 2010).

Qual é a conduta quando a TAPS é diagnosticada?

Não existe um protocolo único. A conduta depende de várias variáveis — idade gestacional, estágio da TAPS, presença ou não de sinais de comprometimento fetal, se o caso é espontâneo ou pós-laser, e da experiência do centro.

As opções possíveis incluem:

  • Vigilância intensiva, com medidas seriadas de MCA-PSV e avaliação de bem-estar fetal — em casos iniciais, estáveis e em idade gestacional ainda precoce.
  • Antecipação do parto, em idade gestacional adequada, quando o quadro avança e o risco de prolongar a gestação supera o benefício.
  • Transfusão intrauterina no feto anêmico — frequentemente repetida ao longo de semanas, como medida de suporte enquanto se aguarda viabilidade ou se decide a melhor abordagem definitiva.
  • Nova cirurgia fetoscópica a laser, em casos selecionados — especialmente quando a TAPS é grave e diagnosticada em idade gestacional precoce.

Cada uma dessas opções tem limites. A transfusão intrauterina trata o sintoma (a anemia) mas não a causa (as anastomoses persistentes), e o quadro frequentemente recorre. O laser é causal, mas pode ser tecnicamente mais difícil na TAPS do que na STFF — sem polidrâmnio para dar espaço, a visualização das pequenas anastomoses é desafiadora.

A decisão é, em última instância, da família. Nosso papel é colocar todas as informações sobre a mesa — o que está acontecendo, quais as opções, o que esperar de cada uma, e o que acontece se nenhuma delas for adequada. Se, após a avaliação, o caso não tiver indicação de intervenção, o acompanhamento continua: definimos onde e quando será o parto, conversamos com a equipe neonatal e seguimos disponíveis ao longo da gestação.

Quando procurar avaliação especializada?

A TAPS é uma das condições em que o encaminhamento precoce muda mais o que é possível fazer. Não porque haja urgência cirúrgica imediata em todos os casos — mas porque, identificada cedo, abre mais opções de manejo.

Situações que merecem avaliação em medicina fetal:

  • Toda gestação gemelar monocoriônica, com ou sem sinais de complicação, precisa de ultrassom especializado quinzenal a partir das 16 semanas
  • Laudo mencionando TAPS, anemia fetal, policitemia fetal ou delta MCA-PSV alterado em gestação gemelar
  • Diagnóstico prévio de STFF tratada com laser — seguimento pós-laser obrigatório
  • Discordância de Doppler entre os dois fetos sem discordância correspondente de líquido amniótico
  • Hidropisia em um dos fetos numa gestação monocoriônica
  • Dúvida sobre o tipo de gemelaridade ou sobre se o seguimento atual está adequado

Atendimento presencial em Curitiba e Porto Alegre. Teleconsulta disponível para pacientes de qualquer estado.

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Perguntas frequentes

O que significa TAPS na gestação gemelar?
TAPS é a sigla em inglês para twin anemia-polycythemia sequence, ou sequência anemia-policitemia. É uma complicação dos gêmeos monocoriônicos em que um feto desenvolve anemia e o outro, policitemia, através de pequenas anastomoses placentárias.
TAPS é a mesma coisa que STFF?
Não. Ambas ocorrem em gestações monocoriônicas e envolvem anastomoses placentárias, mas a STFF clássica causa principalmente desequilíbrio de líquido amniótico (oligoâmnio em um feto, polidrâmnio no outro) através de anastomoses de calibre variável. A TAPS causa diferença de hemoglobina entre os fetos através de anastomoses muito pequenas (< 1 mm), geralmente sem discordância de líquido amniótico. Os bebês frequentemente nascem com tamanhos semelhantes.
Como a TAPS é diagnosticada?
O diagnóstico é feito por ultrassom especializado com Doppler da artéria cerebral média (MCA-PSV) dos dois fetos. O feto anêmico apresenta velocidade aumentada (> 1,5 MoM) e o feto policitêmico, velocidade reduzida (< 0,8–1,0 MoM). Critérios mais modernos utilizam o delta MCA-PSV — a diferença entre os dois fetos — maior que 0,5 MoM.
TAPS pode acontecer depois da cirurgia a laser para STFF?
Sim. A TAPS pós-laser ocorre quando anastomoses muito pequenas (< 1 mm) escapam à coagulação durante a fetoscopia. Por isso o seguimento pós-laser inclui medidas seriadas de Doppler. A técnica de Solomon, que coagula todo o equador placentário, reduziu a incidência de TAPS pós-laser de 16% para 3% no ensaio clínico publicado em 2014.
TAPS sempre precisa de cirurgia?
Não. A conduta depende da gravidade, da idade gestacional e da evolução. Casos iniciais podem ser acompanhados com vigilância intensa; outros se beneficiam de transfusão intrauterina ou de antecipação do parto; em casos graves e precoces, pode haver indicação de nova cirurgia fetoscópica. A decisão é sempre individualizada e compartilhada com a família.
Quais são os riscos para o gêmeo doador e para o receptor?
O doador, anêmico, pode evoluir com sofrimento fetal, hidropisia e restrição de crescimento. O receptor, policitêmico, tem risco de complicações por hiperviscosidade sanguínea, alterações cardiovasculares e, no período neonatal, hipertensão pulmonar persistente. A gravidade depende do estágio e do momento do diagnóstico.
Quando uma gestação com suspeita de TAPS deve ser encaminhada?
Toda gestação gemelar monocoriônica merece acompanhamento especializado, com Doppler quinzenal a partir das 16 semanas. Quando há laudo mencionando TAPS, alteração de Doppler entre os fetos, ou histórico de laser para STFF, o encaminhamento a um centro de medicina fetal deve ser priorizado. A teleconsulta é uma opção logística para revisar laudos antes de definir o próximo passo.

Referências

  1. Lopriore E, Middeldorp JM, Oepkes D, Kanhai HH, Walther FJ, Vandenbussche FP. Twin anemia-polycythemia sequence in two monochorionic twin pairs without oligo-polyhydramnios sequence. Placenta. 2007;28(1):47-51.
  2. Slaghekke F, Kist WJ, Oepkes D, Middeldorp JM, Klumper FJ, Vandenbussche FP, Lopriore E. Twin anemia-polycythemia sequence: diagnostic criteria, classification, perinatal management and outcome. Fetal Diagn Ther. 2010;27(4):181-190.
  3. Slaghekke F, Lopriore E, Lewi L, et al. Fetoscopic laser coagulation of the vascular equator versus selective coagulation for twin-to-twin transfusion syndrome: an open-label randomised controlled trial (Solomon trial). Lancet. 2014;383(9935):2144-2151.
  4. Tollenaar LSA, Lopriore E, Middeldorp JM, et al. Improved prediction of twin anemia-polycythemia sequence by delta middle cerebral artery peak systolic velocity: new antenatal classification system. Ultrasound Obstet Gynecol. 2019;53(6):788-793.
  5. van de Sande MJA, Tollenaar LSA, Haak MC, Slaghekke F, Lopriore E, van der Meeren LE. Placental histology and vascular architecture in spontaneous twin anemia polycythemia sequence. Placenta. 2026;181:48-54.
  6. Robyr R, Lewi L, Salomon LJ, et al. Prevalence and management of late fetal complications following successful selective laser coagulation of chorionic plate anastomoses in twin-to-twin transfusion syndrome. Am J Obstet Gynecol. 2006;194(3):796-803.
  7. Yamamoto M, Ville Y. Recent findings on laser treatment of twin-to-twin transfusion syndrome. Curr Opin Obstet Gynecol. 2006;18(2):87-92.
  8. ISUOG — International Society of Ultrasound in Obstetrics and Gynecology. Practice Guidelines: role of ultrasound in twin pregnancy. Consultar versão vigente.

Imagem hero: FetalTherapyLUMC (Leiden University Medical Center), via Wikimedia Commons, sob licença CC BY-SA 3.0.

Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica presencial ou por telemedicina com avaliação individualizada. Resolução CFM 2.314/2022 para menções a teleconsulta.

Dr. Rafael Bruns — Medicina Fetal

Autor

Dr. Rafael Bruns

Especialista em Medicina Fetal e Cirurgia Fetal. Realizou treinamento em cirurgia fetal a laser para STFF no Leiden University Medical Center (Holanda), com o Prof. Dick Oepkes, em 2015. Atende em Curitiba, Porto Alegre e por teleconsulta.