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Agosto Laranja: entenda a mielomeningocele (espinha bífida)
Medicina Fetal 14 min de leitura

Agosto Laranja: entenda a mielomeningocele (espinha bífida)

Dr. Rafael Bruns
Dr. Rafael Bruns MÉDICO · CRM-PR 18.582 / CRM-RS 58.559
· 14 min de leitura

Agosto Laranja · Conscientização

Todo mês de agosto, o laço laranja lembra uma das malformações congênitas mais importantes da infância: a mielomeningocele, a forma mais grave e mais comum da espinha bífida aberta. Este guia reúne, em linguagem acessível, a história da campanha e — sobretudo — o que a medicina fetal sabe hoje sobre diagnóstico, cirurgia fetal e prevenção.

Importante: conteúdo educativo. A mielomeningocele pode ser identificada ainda na gestação, e existe tratamento — inclusive cirurgia dentro do útero. Se você recebeu esse diagnóstico ou uma suspeita no ultrassom, procure avaliação com um médico com área de atuação em medicina fetal.
Criança sorrindo em cadeira de rodas em um parquinho colorido — Agosto Laranja de conscientização da mielomeningocele (espinha bífida)

O que é o Agosto Laranja

O Agosto Laranja de Conscientização da Mielomeningocele é uma campanha de origem brasileira. Ela nasceu em Blumenau (SC), a partir da mobilização da AAPPM — Associação de Amigos, Pais e Portadores de Mielomeningocele, fundada em 20 de agosto de 2005.

A campanha foi formalizada no município pela Lei Municipal nº 8.435, de 5 de junho de 2017, e depois ampliada para todo o estado de Santa Catarina pela Lei Estadual nº 17.644, de 21 de dezembro de 2018, que estabeleceu o Agosto Laranja de 1º a 31 de agosto no calendário oficial catarinense. Em 2022, essa lei foi incorporada à legislação consolidada do estado (Lei nº 18.531/2022) — a campanha continua vigente no calendário oficial.

Segundo a justificativa do projeto que levou a campanha ao âmbito estadual, agosto foi escolhido por ser o mês em que a AAPPM começou a organizar suas atividades, e a cor laranja foi adotada para chamar a atenção da sociedade para a prevenção e para a existência da mielomeningocele.

Não confundir: existe outra campanha chamada “Agosto Laranja” dedicada à esclerose múltipla — é distinta desta. Por isso usamos sempre o nome completo: Agosto Laranja da Mielomeningocele.

No Brasil ainda não há uma data nacional em lei. Tramita no Congresso o PL 5.173/2023 (senador Romário), que propõe 25 de outubro como Dia Nacional de Conscientização sobre a Mielomeningocele; o projeto foi aprovado em caráter terminativo pela Comissão de Assuntos Sociais do Senado e, em agosto de 2026, aguardava despacho na Câmara dos Deputados. Ou seja: base municipal (Blumenau) e estadual (SC) já existem; a iniciativa nacional ainda está em tramitação.

Nesta condição, o acompanhamento com um serviço de medicina fetal e, quando indicada, a cirurgia fetal fazem parte do cuidado — como veremos adiante.

A prova documental da campanha

As datas e leis abaixo estão registradas em fontes oficiais (diários, câmaras e assembleias):

FonteDataO que comprova
Lei Municipal nº 8.435 — Blumenau/SC05/06/2017Institui o “Agosto Laranja” de conscientização da mielomeningocele em Blumenau
Câmara Municipal de Blumenau11/08/2020Confirma a Lei 8.435/2017 e a finalidade de dar visibilidade à condição
Diário da Assembleia — ALESC nº 732416/08/2018Justificativa histórica: explica a escolha de agosto e da cor laranja
Lei Estadual nº 17.644 — Santa Catarina21/12/2018Institui o Agosto Laranja em todo o estado, de 1º a 31 de agosto
Lei Estadual nº 18.531 (consolidação)05/12/2022Consolida o calendário e mantém o Agosto Laranja da Mielomeningocele
AAPPM — Quem SomosFund. 20/08/2005Entidade central na origem da campanha em Blumenau
IF Global — World SBH Daydesde 2012Data internacional (25/10) — diferente do agosto brasileiro

O que é a mielomeningocele (espinha bífida)

A mielomeningocele é a forma mais grave e mais frequente da espinha bífida aberta — um defeito de fechamento do tubo neural. Nas primeiras semanas de gestação, a estrutura que dará origem ao cérebro e à medula (o tubo neural) não se fecha por completo na região da coluna. O resultado é uma coluna “aberta”, com exposição das meninges e das raízes nervosas.

TipoO que éPrognóstico
Espinha bífida oculta/fechadaDefeito coberto por pele; difícil ver no pré-natalEm geral leve
MeningoceleBolsa só com meninges e líquido, sem raízes nervosasMelhor
MeningomieloceleBolsa contendo meninges e raízes nervosasMais grave
MielosquiseMedula/raízes expostas, sem bolsaGrave
  • Incidência: cerca de 1 a cada 1.100 a 2.000 nascimentos (após a fortificação dos alimentos com ácido fólico).
  • Localização mais comum: região lombar > sacral > torácica > cervical.
  • Risco de repetição numa próxima gestação: 1–2%.
  • Quase sempre vem acompanhada da malformação de Chiari tipo 2 (o cerebelo “escorrega” para baixo), o que ajuda no diagnóstico e é justamente o que a cirurgia fetal ajuda a reverter.

Saiba mais sobre os tipos de espinha bífida e sobre a malformação de Chiari II associada.

Como é feito o diagnóstico no pré-natal

A boa notícia é que hoje a mielomeningocele pode ser identificada cedo, muitas vezes antes mesmo de a coluna ser vista diretamente — porque ela deixa “pistas” no cérebro do bebê.

No 1º trimestre (11–14 semanas): o rastreamento se apoia em marcadores cerebrais indiretos, como a translucência intracraniana reduzida (o 4º ventrículo comprimido), o crash sign e a relação aumentada do plexo coroide. Quanto mais sinais presentes, maior a chance de confirmar o defeito.

No 2º trimestre (ultrassom morfológico): aparecem os sinais clássicos:

  • Sinal do limão — os ossos frontais do crânio ficam “afundados”, com formato de limão (presente em ~57% dos casos);
  • Sinal da banana — o cerebelo muda de forma pela herniação (~77% dos casos).

Confirmado o alerta cerebral, o exame direto da coluna (cortes coronal e transversal) mostra o afastamento dos centros de ossificação e a bolsa da lesão. É nesse momento que se define um dado decisivo: o nível (a altura) da lesão — que se conta pelas vértebras e é o principal fator de prognóstico. Veja mais sobre os sinais ultrassonográficos da espinha bífida, o diagnóstico no morfológico e o ultrassom morfológico do 2º trimestre.

O nível da lesão e o prognóstico

Na mielomeningocele, a altura da lesão na coluna é o principal fator que determina a função motora futura. De modo geral, quanto mais baixa a lesão (região sacral), melhor tende a ser o prognóstico para andar; quanto mais alta (torácica ou lombar alta), maior o comprometimento motor e a chance de a criança precisar de cadeira de rodas. As lesões lombares intermediárias ficam, como esperado, entre esses dois extremos.

Um dado importante para as famílias: o comprometimento é sobretudo motor — a maioria das crianças tem bom desenvolvimento cognitivo. O controle da urina e do intestino, por outro lado, costuma ser afetado em graus variados, mesmo nas lesões mais baixas. Cada caso é único, e o nível exato só é definido com a avaliação detalhada da coluna e das estruturas cerebrais.

Cirurgia fetal: operar antes de nascer

Talvez o avanço mais transformador nessa condição. Desde o estudo MOMS — um ensaio clínico randomizado publicado no New England Journal of Medicine — sabe-se que corrigir a mielomeningocele ainda dentro do útero (antes de 26 semanas) traz resultados superiores ao reparo depois do nascimento:

Desfecho (MOMS, 2011)Cirurgia intraúteroCirurgia pós-natal
Necessidade de derivação (shunt) para hidrocefalia até 12 meses40%82%
Reversão da herniação do cerebelo (Chiari II) aos 12 meses36% sem herniação4%
Andar sem órteses/aparelhos aos 30 meses42%21%

Esses ganhos, porém, vêm com riscos maternos e de prematuridade (o parto foi, em média, mais precoce, com maior chance de rotura de bolsa e de fragilidade da cicatriz uterina).

Por que buscar informação e um centro cedo importa muito. Existe evidência de que o dano neurológico na mielomeningocele pode ser progressivo ao longo da gestação (a hipótese dos “dois golpes”: o defeito de formação somado à lesão pela exposição do tecido nervoso ao líquido amniótico). Além disso, a janela para a cirurgia fetal é limitada (em geral até cerca de 26 semanas). Por isso, o caminho entre a suspeita no ultrassom e a cirurgia pode levar tempo — avaliação, exames, confirmação de critérios — e buscar informação e um centro que realize o procedimento com antecedência ajuda a não perder essa janela.

A técnica aberta (por histerotomia) — a mesma usada no estudo MOMS — é, até hoje, a única validada por ensaio clínico randomizado e serve de referência para tudo o que veio depois. Uma das maiores casuísticas do mundo, brasileira, com mais de 1.000 crianças operadas ao longo de 30 anos, mostrou que, no grupo operado ainda dentro do útero, a necessidade de derivação (shunt) foi muito menor do que nos operados após o nascimento.

Existe também uma abordagem fetoscópica (minimamente invasiva), mais recente. Ela ainda não tem a mesma validação por ensaio randomizado, e comparar seus resultados com os do MOMS sem levar em conta o timing da cirurgia pode induzir a conclusões equivocadas — além de haver relato de maior taxa de deiscência do reparo, que pode exigir uma reoperação após o nascimento. A comparação detalhada entre as duas técnicas — e por que preferimos a técnica aberta — está nesta página: Mielomeningocele: cirurgia aberta ou fetoscópica?

Dois motivos tornam a antecedência uma aliada: há evidência de que operar mais cedo se associa a menos hidrocefalia com necessidade de shunt, e a cirurgia fetal depende de equipe treinada, com uma verdadeira curva de aprendizado. Por isso, procurar com antecedência um centro de referência com volume de casos faz diferença no resultado.

A cirurgia fetal não é para todos os casos. Ela é indicada quando há critérios bem definidos (lesão entre T1 e S1, malformação de Chiari II presente, cariótipo normal, ausência de outras malformações graves) e tem contraindicações (coluna muito tortuosa, colo uterino curto, cicatrizes uterinas prévias). A decisão é sempre individual e da família, após discussão detalhada, em centro multidisciplinar. Conheça também a calculadora de DVP na cirurgia fetal de mielomeningocele e a página de cirurgia fetal.

Importante (e honesto): a cirurgia fetal não cura a mielomeningocele — ela melhora desfechos (reduz a hidrocefalia que exige shunt, aumenta a chance de andar e reverte o Chiari). O acompanhamento após o nascimento continua sendo fundamental.

Avaliação especializada

Recebeu um diagnóstico de mielomeningocele?

Uma avaliação especializada esclarece o nível da lesão, o prognóstico e se há indicação de cirurgia fetal.

Prevenção: o papel do ácido fólico

Grande parte dos defeitos de fechamento do tubo neural pode ser prevenida. O uso de ácido fólico antes da concepção e no início da gestação é uma das intervenções de saúde pública mais custo-efetivas da medicina — o ensaio clássico do MRC mostrou redução importante da recorrência, e a fortificação obrigatória de farinhas reduziu a espinha bífida em cerca de um terço já nos primeiros anos.

  • 0,4 mg/dia para mulheres em idade fértil ou que planejam engravidar, idealmente iniciando pelo menos 1 mês antes da concepção e mantendo no 1º trimestre;
  • 4 mg/dia (dose alta) para mulheres com gestação anterior afetada por defeito do tubo neural ou outros fatores de risco.

A dose e o momento ideais devem ser sempre individualizados com o seu médico.

Conscientização, inclusão e associações

Conscientizar é também informar corretamente e apoiar as famílias. No Brasil, várias associações atuam na assistência, na inclusão e na defesa de direitos das pessoas com mielomeningocele e espinha bífida:

EntidadeLocalDesdeSite
ABRASSE — Associação Brasileira de Espinha BífidaCuritiba/PR2018abrasse.com.br
AAPPM — Amigos, Pais e Portadores de MielomeningoceleBlumenau/SC2005aappmmielo.com.br
AEBH-RJ — Espinha Bífida e Hidrocefalia do RJSão Gonçalo/RJ2001aebhrj.org.br
AMH — Mielomeningocele e HidrocefaliaTeresina/PI2003@amh_teresina
AEB-MT — Espinha Bífida de Mato GrossoCuiabá/MT2004@espinhabifidamt
AMBSEC — Mielomeningocele da Baixada SantistaSantos/SP2023@mielobaixada

Lista de entidades com atuação pública identificável; não pretende ser exaustiva.

E no resto do mundo?

Não existe um único mês universal de conscientização da espinha bífida — o calendário varia entre os países. A IF Global (International Federation for Spina Bifida and Hydrocephalus) instituiu o World Spina Bifida and Hydrocephalus Day em 25 de outubro (primeira edição em 2012); os Estados Unidos marcam outubro, o Canadá junho, o Reino Unido uma semana em outubro e a Espanha 21 de novembro. O Agosto Laranja é a contribuição brasileira, nascida em Blumenau e oficializada em Santa Catarina.

Perguntas frequentes

Mielomeningocele e espinha bífida são a mesma coisa?
A espinha bífida é o grupo de defeitos de fechamento da coluna; a mielomeningocele é a sua forma aberta mais grave e mais comum, em que meninges e raízes nervosas ficam expostas.
É possível diagnosticar ainda na gestação?
Sim. Sinais cerebrais indiretos já aparecem no 1º trimestre, e no ultrassom morfológico do 2º trimestre os sinais do limão e da banana, somados ao exame da coluna, confirmam o diagnóstico.
A cirurgia fetal cura a mielomeningocele?
Não cura, mas melhora os desfechos: reduz a necessidade de shunt para hidrocefalia, aumenta a chance de a criança andar e reverte a malformação de Chiari. O acompanhamento após o nascimento continua necessário.
Dá para prevenir?
Boa parte dos casos, sim — com ácido fólico iniciado antes da concepção. Mulheres com gestação anterior afetada usam dose maior, sob orientação médica.
Por que o Agosto Laranja é em agosto?
Segundo a justificativa oficial do projeto estadual de Santa Catarina, agosto foi escolhido por ser o mês em que a AAPPM começou a organizar suas atividades.
O Agosto Laranja é lei nacional?
Não. Tem base municipal (Blumenau) e estadual (Santa Catarina). A proposta nacional em tramitação (PL 5.173/2023) refere-se a 25 de outubro e ainda não virou lei.

Medicina fetal e cirurgia fetal

Avaliação com o Dr. Rafael Bruns

Diagnóstico de mielomeningocele ou suspeita no ultrassom? Uma avaliação especializada define o nível da lesão, o prognóstico e a indicação de cirurgia fetal — presencial ou por teleconsulta.

Curitiba · Porto Alegre · Telemedicina

Referências

  1. Adzick NS, et al. A randomized trial of prenatal versus postnatal repair of myelomeningocele (MOMS). N Engl J Med. 2011;364(11):993–1004.
  2. MRC Vitamin Study Research Group. Prevention of neural tube defects: results of the Medical Research Council Vitamin Study. Lancet. 1991;338(8760):131–137.
  3. Nicolaides KH, et al. Ultrasound screening for spina bifida: cranial and cerebellar signs. Lancet. 1986;2(8498):72–74.
  4. De Wals P, et al. Reduction in neural-tube defects after folic acid fortification in Canada. N Engl J Med. 2007;357(2):135–142.
  5. Chaoui R, et al. Assessment of intracranial translucency in the detection of spina bifida at the 11–13-week scan. Ultrasound Obstet Gynecol. 2009;34(3):249–252.
  6. Cavalheiro S, … Moron AF. Hydrocephalus in myelomeningocele. Childs Nerv Syst. 2021;37(11):3407–3415.
  7. Peralta CFA, et al. Fetal open spinal dysraphism repair through a mini-hysterotomy. Prenat Diagn. 2020;40(6):689–697.
  8. Joyeux L, et al. Learning curves of open and endoscopic fetal spina bifida closure. Ultrasound Obstet Gynecol. 2019;55(6):730–739.

Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica presencial ou por telemedicina com avaliação individualizada.

Dr. Rafael Bruns — Medicina Fetal
Dr. Rafael Bruns Medicina Fetal

Médico com área de atuação em Medicina Fetal, atuando em Curitiba e Porto Alegre. Realiza cirurgia fetal, ultrassonografia especializada, procedimentos invasivos como amniocentese e biópsia de vilo corial, além do acompanhamento de gestações de alto risco. Doutor pela UNIFESP.

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