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Malformação de Chiari II e mielomeningocele: o que significa (e o que não significa)
Medicina Fetal 13 min de leitura

Malformação de Chiari II e mielomeningocele: o que significa (e o que não significa)

Dr. Rafael Bruns
Dr. Rafael Bruns MÉDICO · CRM-PR 18.582 / CRM-RS 58.559
· 13 min de leitura

Medicina Fetal · Mielomeningocele

Logo depois do diagnóstico de mielomeningocele, muitas famílias ouvem mais uma frase: “há também uma malformação de Chiari II”. Soa como um segundo problema empilhado sobre o primeiro — e vem com a dúvida de madrugada: será que o Chiari do meu bebê piorou? Virou tipo III?

Comece por aqui: o Chiari II não é uma doença separada que se soma à espinha bífida. Ele é uma consequência dela — parte do mesmo quadro. E os “tipos” não são uma escala de gravidade pela qual o bebê sobe ou desce.

Se você chegou aqui com a pergunta sobre “piora”, respire — ela é mais comum do que parece e quase sempre nasce de um mal-entendido, não de uma piora. Este texto desfaz exatamente essa confusão: o que é a malformação de Chiari, por que no contexto da mielomeningocele ela é sempre do tipo II, e por que os tipos não são uma escala pela qual o bebê sobe ou desce.

O que é a malformação de Chiari

“Malformação de Chiari” é um nome guarda-chuva para um grupo de alterações na junção entre o crânio e a coluna, em que estruturas da parte de trás do cérebro descem mais do que o normal em direção ao canal da coluna. As estruturas envolvidas costumam ser o cerebelo (a região responsável pelo equilíbrio e pela coordenação dos movimentos) e o tronco encefálico (a “central” que controla funções vitais, como respiração e batimentos cardíacos). Elas se deslocam para baixo através do forame magno — a abertura na base do crânio por onde a medula espinhal passa.

Até aqui, parece uma coisa só. Mas existe um detalhe que é, de longe, o ponto mais mal compreendido por famílias e até por boa parte dos textos da internet: a malformação de Chiari não é uma única condição. Existem tipos diferentes — e é justamente sobre eles que mora a confusão.

Esquema comparativo: cérebro normal à esquerda e malformação de Chiari com herniação do cerebelo e ventriculomegalia à direita
À esquerda, a anatomia normal; à direita, a malformação de Chiari — o cerebelo e o tronco descem pela base do crânio e os ventrículos se dilatam (ventriculomegalia). Imagem: Adobe Stock (licença adquirida).

Os tipos são uma classificação, não uma escala de gravidade

Esse é o coração deste artigo, então vou ser direto: a malformação de Chiari II não progride para tipo III, nem “melhora” e vira tipo I. Os números (I, II, III) não são notas de uma prova nem degraus de uma escada. São apenas rótulos para anatomias diferentes, definidas ainda durante a formação do sistema nervoso do bebê.

Uma comparação ajuda: pense nos tipos como moldes distintos, não como etapas de um mesmo processo. Assim como um modelo de carro não “vira” outro com o tempo, um Chiari II não se transforma em I ou III. Cada um é um cenário anatômico próprio desde o começo.

Chiari tipo I — o que o seu bebê provavelmente não tem

É a forma mais comum na população em geral, mas tipicamente aparece em crianças maiores e adultos. Costuma ser um descenso isolado das tonsilas do cerebelo, muitas vezes descoberto por acaso numa ressonância pedida por dor de cabeça ou por siringomielia (acúmulo de líquido dentro da medula). O ponto importante: o Chiari I não está associado à espinha bífida aberta. Quando alguém comenta “conheço um adulto com Chiari”, quase sempre está falando deste tipo — que é uma condição diferente da do seu bebê.

Chiari tipo II — o que acompanha a mielomeningocele

É o tipo ligado à espinha bífida aberta. Aqui, além das tonsilas, descem também o vermis (a porção central do cerebelo), parte do tronco e o quarto ventrículo, dentro de uma fossa posterior — o compartimento na base do crânio que abriga o cerebelo — que se desenvolveu pequena e apertada. É deste tipo que falamos quando o assunto é mielomeningocele, e é nele que este artigo se concentra.

Chiari tipo III — raro e diferente

É uma forma rara e mais grave, com uma anatomia distinta: a herniação ocorre através de um defeito ósseo na região occipital ou cervical alta, formando uma encefalocele (uma protrusão de conteúdo do crânio para fora dele). Não é “um Chiari II que avançou” — é outra configuração, com mecanismo e localização próprios.

Repare no fio que une as três descrições: o número indica o tipo (qual anatomia), não a gravidade. O que pode mudar ao longo do tempo — e até melhorar com tratamento — é a intensidade da herniação, os sintomas e complicações como a hidrocefalia. O tipo em si não muda.

Comparação dos três tipos de malformação de Chiari (I, II e III) mostrando que são anatomias distintas, e não estágios de gravidade
Os três tipos de malformação de Chiari são anatomias distintas — uma classificação, não uma escala de gravidade.

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Por que se chama Chiari (e não Arnold-Chiari)

Talvez o seu laudo, ou o seu médico, tenha usado o termo “Arnold-Chiari”. Vale esclarecer, porque isso também gera confusão: é a mesma coisa, apenas um nome mais antigo.

A história é curiosa. Em 1891, o patologista austríaco Hans Chiari descreveu e classificou essas malformações do cerebelo associadas à hidrocefalia. Anos depois, em 1894, o alemão Julius Arnold publicou o caso de um único bebê com espinha bífida — sem sequer citar o trabalho de Chiari. Foi só em 1907 que dois pesquisadores ligados ao laboratório de Arnold, Schwalbe e Gredig, mostraram que essas alterações se associavam de forma regular à espinha bífida e batizaram o quadro de “malformação de Arnold-Chiari”. Para muitos historiadores da medicina, o crédito dado a Arnold acabou desproporcional ao seu papel real — e por isso a literatura atual prefere simplesmente “malformação de Chiari”.

Para a sua família, a mensagem é simples: se ouvir “Arnold-Chiari”, não se trata de um problema diferente nem mais grave. É o mesmo Chiari II, com um nome de época.

Por que a mielomeningocele causa o Chiari II

Entender o mecanismo tira boa parte do medo, porque mostra que tudo faz parte de uma mesma sequência — e não de uma série de azares independentes.

Na espinha bífida aberta, um trecho da medula não se fechou e fica exposto. Por esse defeito, há um vazamento contínuo de líquor (o líquido que banha e pressuriza o sistema nervoso) para o líquido amniótico. Em vez de ajudar a “inflar” e dar forma às estruturas em desenvolvimento, o líquor escapa. Sem essa pressão, a fossa posterior se desenvolve pequena demais. E, sem espaço suficiente, o cerebelo e o tronco acabam empurrados para baixo, em direção ao canal da coluna — o que chamamos de Chiari II.

Sequência em quatro passos de como a espinha bífida aberta leva ao Chiari tipo II: coluna aberta, vazamento de líquor, fossa posterior pequena e descida do cerebelo
A sequência que liga a espinha bífida aberta ao Chiari II — e, por extensão, à hidrocefalia.

É essa mesma anatomia que produz os sinais que o ultrassom morfológico costuma captar já no segundo trimestre: o sinal do “limão” (no formato do crânio) e o sinal da “banana” (no formato do cerebelo). E é também por aí que o Chiari II se conecta à hidrocefalia: ao deslocar essas estruturas, ele pode dificultar a circulação normal do líquor, levando ao seu acúmulo — assunto que detalhamos em Chiari II, hidrocefalia e a derivação (shunt).

Quando avalio um bebê com mielomeningocele, a fossa posterior é uma das primeiras coisas que examino — é ali que a anatomia do Chiari II se revela, e é ali que a correção pré-natal pode fazer diferença.

O que muda — e o que não muda — com a cirurgia fetal

Antes de falar do benefício, um limite honesto: a cirurgia fetal não é uma cura e não “transforma” o tipo de Chiari. O que ela pode fazer, em casos selecionados, é mudar o ponto de partida do bebê.

Foi isso que o estudo MOMS — a principal referência científica no tema — demonstrou. Ao fechar o defeito da coluna ainda na gestação, interrompe-se o vazamento de líquor, o que reduz a herniação do cerebelo e a necessidade de derivação (o shunt, um cateter que drena o excesso de líquor na hidrocefalia). No estudo, a necessidade de shunt no primeiro ano de vida foi menor no grupo operado antes do nascimento. Os detalhes desse estudo e o que ele prova — e o que não prova — estão reunidos em o que a cirurgia pré-natal pode mudar, dentro do nosso conteúdo sobre diagnóstico e cirurgia da mielomeningocele.

Nem todo caso é candidato à cirurgia fetal — há critérios bem definidos. E se a avaliação concluir que ela não é a melhor indicação para o seu bebê, o acompanhamento continua do mesmo jeito: a avaliação não é um portão de entrada apenas para a cirurgia. É um mapa para a decisão.

O que esperar: prognóstico e acompanhamento

O Chiari II faz parte do quadro da mielomeningocele, e o seu impacto varia bastante de criança para criança. Por isso, em vez de uma previsão única, o que se constrói é um acompanhamento — em geral multidisciplinar, envolvendo neurocirurgia, neurologia, urologia e reabilitação.

Muitas crianças com Chiari II têm poucos ou nenhum sintoma diretamente ligado a ele e seguem com qualidade de vida; outras precisam de atenção mais próxima a sinais como dificuldade para engolir ou alterações na respiração. Uma avaliação especializada do sistema nervoso fetal ajuda a entender, ainda na gestação, qual é o cenário do seu bebê. A decisão sobre cada passo é sempre da família, com a informação completa na mão — o papel da equipe é garantir que ninguém decida no escuro.

Quando procurar uma avaliação especializada:

  • O laudo do seu bebê menciona mielomeningocele e Chiari II, e você não entendeu o que isso significa na prática
  • Dois serviços deram explicações diferentes e os laudos parecem se contradizer
  • O ultrassom mostrou sinais como o do limão, o da banana ou ventriculomegalia (aumento dos ventrículos do cérebro) sem uma explicação clara
  • Você quer entender as opções de cirurgia fetal antes que a janela ideal de tratamento se feche
  • Você é de outra cidade e prefere começar por uma segunda opinião à distância

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Uma avaliação completa, com tempo para examinar a fossa posterior, explicar o laudo e responder. Se você está em outra cidade ou quer rever um laudo antes de decidir, a segunda opinião pode começar à distância, por telemedicina (Resolução CFM 2.314/2022).

Perguntas frequentes

A malformação de Chiari II pode virar tipo I ou III?
Não. Os tipos de Chiari são uma classificação anatômica, não estágios de gravidade. Cada tipo é uma configuração definida durante a formação do sistema nervoso, e um não se transforma no outro. O que pode mudar ao longo do tempo é a intensidade da herniação e os sintomas — não o tipo.
Chiari II é a mesma coisa que Arnold-Chiari?
Sim, é o mesmo. “Arnold-Chiari” é um nome mais antigo para o tipo II. A literatura médica atual prefere “malformação de Chiari”. Se o seu médico usou o termo “Arnold-Chiari”, não é um problema diferente nem mais grave.
Meu bebê tem mielomeningocele e Chiari II — são dois problemas separados?
Não. São partes do mesmo quadro. O Chiari II é uma consequência da espinha bífida aberta: o vazamento de líquor pelo defeito da coluna faz com que a fossa posterior se desenvolva pequena, e isso desloca o cerebelo para baixo. Não é uma segunda doença que se somou.
Chiari II é a mesma coisa que hidrocefalia?
Não, mas as duas estão ligadas. O Chiari II pode dificultar a circulação do líquor e, com isso, favorecer o acúmulo que caracteriza a hidrocefalia. São coisas diferentes, frequentemente associadas no mesmo bebê.
Chiari II tem cura?
Não se “cura” no sentido de desaparecer, porque é uma característica anatômica formada durante a gestação. Mas tem tratamento e acompanhamento, e a cirurgia fetal, em casos selecionados, pode reduzir suas repercussões — como a herniação do cerebelo e a necessidade de derivação.
O Chiari II em adulto é igual ao do meu bebê?
Em geral, não. O que se vê com mais frequência em adultos é o Chiari tipo I, que é uma condição diferente e não está associada à espinha bífida. O Chiari II é o tipo ligado à mielomeningocele.

Referências

  1. Chiari H. Ueber Veränderungen des Kleinhirns infolge von Hydrocephalie des Grosshirns. Dtsch Med Wochenschr. 1891;17:1172-1175.
  2. Schwalbe E, Gredig M. Über Entwicklungsstörungen des Kleinhirns, Hirnstamms und Halsmarks bei Spina bifida. Beitr Pathol Anat. 1906;40:132-194.
  3. McLone DG, Knepper PA. The cause of Chiari II malformation: a unified theory. Pediatr Neurosci. 1989;15(1):1-12.
  4. Nicolaides KH, Campbell S, Gabbe SG, Guidetti R. Ultrasound screening for spina bifida: cranial and cerebellar signs. Lancet. 1986;2(8498):72-74.
  5. Adzick NS, Thom EA, Spong CY, et al. A randomized trial of prenatal versus postnatal repair of myelomeningocele. N Engl J Med. 2011;364(11):993-1004.
  6. Pearce JMS. Arnold Chiari, or “Cruveilhier Cleland Chiari” malformation. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 2000;68(1):13.

Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica presencial ou por telemedicina com avaliação individualizada. Resolução CFM 2.314/2022 para menções a teleconsulta.

Dr. Rafael Bruns — Medicina Fetal

Autor

Prof. Dr. Rafael Bruns

Especialista em Medicina Fetal e Cirurgia Fetal. Realizou treinamento em cirurgia fetal a laser para STFF no Leiden University Medical Center (Holanda), com o Prof. Dick Oepkes, em 2015. Atende em Curitiba, Porto Alegre e por teleconsulta.