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Síndrome de transfusão feto-fetal: a história de Carolina
Cirurgia Fetal 9 min de leitura

Síndrome de transfusão feto-fetal: a história de Carolina

Dr. Rafael Bruns
Dr. Rafael Bruns MÉDICO · CRM-PR 18.582 / CRM-RS 58.559
· 9 min de leitura

CASO CLÍNICO

Carolina descobriu que suas gêmeas tinham síndrome de transfusão feto-fetal com 12 semanas. Conheça a história do diagnóstico, do laser placentário e do nascimento das meninas.

Atenção: o nome da paciente foi alterado para proteger sua privacidade. O relato foi autorizado por escrito.
Acompanhamento de gestação gemelar monocoriônica com especialista em medicina fetal
Gestação gemelar monocoriônica: acompanhamento com especialista em medicina fetal é fundamental para o diagnóstico precoce da STFF.

O diagnóstico: 12 semanas

Carolina estava grávida de gêmeas. Na ecografia de translucência nucal, por volta das 12 semanas, a obstetra que a acompanhava identificou uma diferença entre os dois fetos. Repetiu o exame, confirmou a alteração e encaminhou Carolina para avaliação com um especialista em medicina fetal.

Gêmeas monocoriônicas — aquelas que dividem a mesma placenta — têm um risco específico: a síndrome de transfusão feto-fetal. Na STFF, as conexões vasculares na placenta fazem com que um bebê (o doador) perca sangue para o outro (o receptor). O doador fica com pouco líquido amniótico. O receptor, com excesso. Se não tratada, a STFF pode levar à perda de ambos os bebês.

Ultrassom de gestação gemelar monocoriônica mostrando diferença de líquido amniótico entre os fetos — sinal de síndrome de transfusão feto-fetal
Ultrassom de gestação gemelar monocoriônica com diferença de líquido amniótico — sinal de STFF. Imagem do arquivo pessoal do Dr. Rafael Bruns.

O diagnóstico precoce mudou tudo para Carolina.

O acompanhamento semanal

A partir das 12 semanas, Carolina passou a fazer ecografias semanais para monitorar o volume de líquido amniótico de cada gêmea e o fluxo sanguíneo entre elas.

Nas palavras de Carolina: “A gente sentia muita confiança. Ele explicou tudo certinho — quais seriam as chances, os riscos, o que poderia acontecer. Sempre foi muito claro.”

Havia semanas melhores e semanas piores. O acompanhamento semanal permitia identificar com precisão o momento em que uma intervenção seria necessária — nem cedo demais, nem tarde demais.

A decisão pela cirurgia: 18 semanas

Por volta das 17 semanas, o quadro se agravou. Uma das gêmeas ficou com muito pouco líquido amniótico — quase nenhum. A outra apresentava sobrecarga cardíaca pelo excesso de volume. Era um estágio avançado da classificação de Quintero, e a indicação era clara: sem intervenção, o risco de perder ambas era muito alto.

O laser placentário foi indicado. Esse procedimento usa um fetoscópio — um instrumento fino introduzido por uma pequena incisão no abdome materno — para cauterizar as conexões vasculares anormais na placenta. O objetivo é interromper a transfusão desigual de sangue entre os bebês.

Transparência sobre os riscos: a decisão pelo laser nunca é simples. Em até um terço dos casos, o resultado pode não ser o que a família espera — e isso precisa ser dito com clareza antes do procedimento. Mas na STFF em estágio avançado, sem intervenção, a chance de perder os dois bebês supera 90%. São esses dois números, juntos, que orientam a decisão com a família.

A cirurgia de Carolina foi realizada com 18 semanas de gestação. Um aspecto importante do caso foi a necessidade de uma liminar judicial para que o plano de saúde cobrisse o procedimento — uma realidade que muitas famílias enfrentam no Brasil. Com o apoio jurídico adequado, a autorização saiu em menos de uma semana.

A cirurgia correu bem. Ambas as gêmeas foram salvas.

SEGUNDA OPINIÃO

Recebeu o diagnóstico de STFF?

A avaliação especializada pode começar por telemedicina, com análise dos exames já realizados.

Entender o que é possível fazer

O nascimento: 31 semanas

Após o laser, Carolina continuou o acompanhamento semanal com ecografias para monitorar a recuperação de ambas as gêmeas. O líquido amniótico se redistribuiu e a sobrecarga cardíaca da receptora melhorou.

O parto aconteceu com 31 semanas e cinco dias, quando houve rotura da bolsa. As duas meninas nasceram respirando sozinhas. Ficaram 37 dias na UTI Neonatal — intubadas por apenas dois ou três dias.

Nas palavras de Carolina: “Eu consegui ver as duas quando elas nasceram. Para mim, isso foi maravilhoso.”

Como estão as meninas hoje

As gêmeas de Carolina hoje estão com dois anos e meio. Estão bem, sem sequelas significativas do quadro que enfrentaram antes de nascer.

“As pessoas ficam surpresas quando eu conto. Cirurgia fetal? Como assim, operar antes de nascer?”, diz Carolina. “Eu mostro para as pessoas porque é importante que elas saibam que esse recurso existe.”

É exatamente essa a razão deste relato: o conhecimento sobre a existência do tratamento faz diferença na corrida contra o tempo que a STFF impõe.

O que esta história ensina

O caso de Carolina ilustra o caminho que muitas famílias percorrem quando recebem o diagnóstico de STFF:

1) Diagnóstico precoce

A obstetra identificou o problema na translucência nucal e encaminhou para um especialista.

2) Acompanhamento semanal

Permitiu intervir no momento certo — nem cedo demais, nem tarde demais.

3) Laser placentário

O tratamento com melhor evidência científica para STFF avançada, sem garantir que será perfeito.

4) Acesso ao tratamento

Que por vezes exige apoio jurídico para cobertura pelo plano de saúde.

5) Seguimento pós-cirurgia

Acompanhamento semanal fundamental até o parto.

Cada caso é individual. O laser placentário não garante a sobrevida de ambos os bebês em todas as situações. Mas é o tratamento com melhor evidência científica para a STFF em estágio avançado, e o acesso ao diagnóstico e ao tratamento faz diferença.

Quando procurar avaliação especializada

Procure avaliação se:

  • Você está grávida de gêmeos e descobriu que são monocoriônicos (uma placenta só)
  • Um ultrassom mostrou diferença importante no volume de líquido amniótico entre os bebês
  • O médico que acompanha sua gestação mencionou a possibilidade de STFF
  • Você deseja uma segunda opinião sobre o acompanhamento de uma gestação gemelar

O diagnóstico de STFF não deve esperar semanas. O estadiamento pode mudar em dias, e a janela para o tratamento a laser tem limite. A avaliação pode começar por telemedicina.

Perguntas frequentes

O que é a síndrome de transfusão feto-fetal (STFF)?

A STFF é uma complicação de gestações gemelares monocoriônicas (gêmeos que dividem a mesma placenta). Conexões vasculares anormais na placenta fazem com que um bebê (doador) perca sangue para o outro (receptor), gerando desequilíbrio de líquido amniótico e risco para ambos.
O laser placentário garante que os dois bebês sobrevivam?

Não. O laser placentário é o tratamento com melhor evidência científica para STFF avançada, mas em até um terço dos casos o resultado pode não ser favorável. É fundamental que a família compreenda tanto os benefícios quanto os limites do procedimento antes de tomar a decisão.
Até que idade gestacional o laser pode ser feito?

O laser placentário costuma ser realizado entre 16 e 26 semanas de gestação. A janela ideal depende do estágio da STFF e das condições de cada caso. Por isso o diagnóstico e o encaminhamento precoces são fundamentais.
O plano de saúde cobre a cirurgia fetal de STFF?

A cobertura varia. Em muitos casos no Brasil, é necessário recorrer a uma liminar judicial para que o plano de saúde autorize o procedimento. A orientação jurídica especializada pode agilizar esse processo, que costuma ser resolvido em poucos dias por se tratar de emergência.
A avaliação pode começar por telemedicina?

Sim. A consulta inicial com o especialista em medicina fetal pode ser realizada por telemedicina, com análise dos exames já realizados. Se houver indicação de procedimento, o acompanhamento presencial será necessário.
O que acontece após o laser placentário?

Após o laser, a gestante continua o acompanhamento semanal com ecografias para monitorar a redistribuição do líquido amniótico e a função cardíaca dos bebês. O objetivo é prolongar a gestação o máximo possível, mas partos prematuros são comuns.

Referências

  1. Senat MV et al. Endoscopic laser surgery versus serial amnioreduction for severe twin-to-twin transfusion syndrome. N Engl J Med. 2004;351(2):136-144.
  2. Slaghekke F et al. Fetoscopic laser coagulation of the vascular equator versus selective coagulation for twin-to-twin transfusion syndrome: an open-label randomised controlled trial. Lancet. 2014;383(9935):2144-2151.
  3. Quintero RA et al. Staging of twin-twin transfusion syndrome. J Perinatol. 1999;19(8 Pt 1):550-555.

STFF · CIRURGIA FETAL

Recebeu o diagnóstico de STFF?

A avaliação especializada pode começar por telemedicina. Se houver indicação de procedimento, o acompanhamento presencial será necessário.

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Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica presencial ou por telemedicina com avaliação individualizada. Cada caso de STFF tem particularidades que exigem acompanhamento especializado.

Dr. Rafael Bruns — Medicina Fetal

Dr. Rafael Bruns
Gin. e Obstetrícia
Medicina Fetal

Médico especialista em Ginecologia, Obstetrícia e Medicina Fetal. Atua com cirurgia fetal desde 2016 em Curitiba e Porto Alegre.

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