CASO CLÍNICO
Carolina descobriu que suas gêmeas tinham síndrome de transfusão feto-fetal com 12 semanas. Conheça a história do diagnóstico, do laser placentário e do nascimento das meninas.

O diagnóstico: 12 semanas
Carolina estava grávida de gêmeas. Na ecografia de translucência nucal, por volta das 12 semanas, a obstetra que a acompanhava identificou uma diferença entre os dois fetos. Repetiu o exame, confirmou a alteração e encaminhou Carolina para avaliação com um especialista em medicina fetal.
Gêmeas monocoriônicas — aquelas que dividem a mesma placenta — têm um risco específico: a síndrome de transfusão feto-fetal. Na STFF, as conexões vasculares na placenta fazem com que um bebê (o doador) perca sangue para o outro (o receptor). O doador fica com pouco líquido amniótico. O receptor, com excesso. Se não tratada, a STFF pode levar à perda de ambos os bebês.

O diagnóstico precoce mudou tudo para Carolina.
O acompanhamento semanal
A partir das 12 semanas, Carolina passou a fazer ecografias semanais para monitorar o volume de líquido amniótico de cada gêmea e o fluxo sanguíneo entre elas.
Havia semanas melhores e semanas piores. O acompanhamento semanal permitia identificar com precisão o momento em que uma intervenção seria necessária — nem cedo demais, nem tarde demais.
A decisão pela cirurgia: 18 semanas
Por volta das 17 semanas, o quadro se agravou. Uma das gêmeas ficou com muito pouco líquido amniótico — quase nenhum. A outra apresentava sobrecarga cardíaca pelo excesso de volume. Era um estágio avançado da classificação de Quintero, e a indicação era clara: sem intervenção, o risco de perder ambas era muito alto.
O laser placentário foi indicado. Esse procedimento usa um fetoscópio — um instrumento fino introduzido por uma pequena incisão no abdome materno — para cauterizar as conexões vasculares anormais na placenta. O objetivo é interromper a transfusão desigual de sangue entre os bebês.
A cirurgia de Carolina foi realizada com 18 semanas de gestação. Um aspecto importante do caso foi a necessidade de uma liminar judicial para que o plano de saúde cobrisse o procedimento — uma realidade que muitas famílias enfrentam no Brasil. Com o apoio jurídico adequado, a autorização saiu em menos de uma semana.
A cirurgia correu bem. Ambas as gêmeas foram salvas.
O nascimento: 31 semanas
Após o laser, Carolina continuou o acompanhamento semanal com ecografias para monitorar a recuperação de ambas as gêmeas. O líquido amniótico se redistribuiu e a sobrecarga cardíaca da receptora melhorou.
O parto aconteceu com 31 semanas e cinco dias, quando houve rotura da bolsa. As duas meninas nasceram respirando sozinhas. Ficaram 37 dias na UTI Neonatal — intubadas por apenas dois ou três dias.
Como estão as meninas hoje
As gêmeas de Carolina hoje estão com dois anos e meio. Estão bem, sem sequelas significativas do quadro que enfrentaram antes de nascer.
“As pessoas ficam surpresas quando eu conto. Cirurgia fetal? Como assim, operar antes de nascer?”, diz Carolina. “Eu mostro para as pessoas porque é importante que elas saibam que esse recurso existe.”
É exatamente essa a razão deste relato: o conhecimento sobre a existência do tratamento faz diferença na corrida contra o tempo que a STFF impõe.
O que esta história ensina
O caso de Carolina ilustra o caminho que muitas famílias percorrem quando recebem o diagnóstico de STFF:
1) Diagnóstico precoce
A obstetra identificou o problema na translucência nucal e encaminhou para um especialista.
2) Acompanhamento semanal
Permitiu intervir no momento certo — nem cedo demais, nem tarde demais.
3) Laser placentário
O tratamento com melhor evidência científica para STFF avançada, sem garantir que será perfeito.
4) Acesso ao tratamento
Que por vezes exige apoio jurídico para cobertura pelo plano de saúde.
5) Seguimento pós-cirurgia
Acompanhamento semanal fundamental até o parto.
Cada caso é individual. O laser placentário não garante a sobrevida de ambos os bebês em todas as situações. Mas é o tratamento com melhor evidência científica para a STFF em estágio avançado, e o acesso ao diagnóstico e ao tratamento faz diferença.
Quando procurar avaliação especializada
- Você está grávida de gêmeos e descobriu que são monocoriônicos (uma placenta só)
- Um ultrassom mostrou diferença importante no volume de líquido amniótico entre os bebês
- O médico que acompanha sua gestação mencionou a possibilidade de STFF
- Você deseja uma segunda opinião sobre o acompanhamento de uma gestação gemelar
O diagnóstico de STFF não deve esperar semanas. O estadiamento pode mudar em dias, e a janela para o tratamento a laser tem limite. A avaliação pode começar por telemedicina.
Perguntas frequentes
Referências
- Senat MV et al. Endoscopic laser surgery versus serial amnioreduction for severe twin-to-twin transfusion syndrome. N Engl J Med. 2004;351(2):136-144.
- Slaghekke F et al. Fetoscopic laser coagulation of the vascular equator versus selective coagulation for twin-to-twin transfusion syndrome: an open-label randomised controlled trial. Lancet. 2014;383(9935):2144-2151.
- Quintero RA et al. Staging of twin-twin transfusion syndrome. J Perinatol. 1999;19(8 Pt 1):550-555.
Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica presencial ou por telemedicina com avaliação individualizada. Cada caso de STFF tem particularidades que exigem acompanhamento especializado.

