Medicina fetal
Seu médico indicou aspirina em baixa dose nesta gravidez? Entenda por que ela entrou na prevenção da pré-eclâmpsia: para quem é indicada, quando começar e o que ela realmente previne.
Esta página explica, de forma clara, por que a aspirina em baixa dose entrou na rotina de prevenção da pré-eclâmpsia: para quem ela é indicada, quando começar, qual a dose, se é segura para o bebê — e o que ela pode (e o que não pode) fazer.
A pré-eclâmpsia é uma complicação da segunda metade da gravidez, marcada por pressão alta e sinais de sobrecarga em órgãos da mãe, como rim e fígado. A boa notícia é que, em gestantes de maior risco identificadas cedo, a aspirina em baixa dose demonstrou reduzir de forma significativa a forma mais grave e precoce da doença — a chamada pré-eclâmpsia pré-termo (aquela que leva ao parto antes de 37 semanas).
Por que a aspirina ajuda
A pré-eclâmpsia começa cedo, ainda no primeiro trimestre, no momento em que a placenta se forma. Em algumas gestações, os vasos que ligam a placenta ao útero não se desenvolvem como deveriam. A placenta passa a funcionar sob “estresse” — e, mais adiante na gravidez, isso se traduz em pressão alta e sobrecarga dos órgãos maternos.
A aspirina em baixa dose age justamente nessa fase inicial: ela reequilibra a produção de substâncias que regulam os vasos sanguíneos, favorecendo a formação de vasos placentários mais saudáveis. É por isso que o momento de começar importa tanto — a janela de maior efeito é antes de a formação da placenta se completar, por volta de 16 semanas.

Para quem a aspirina é indicada
A aspirina não é para todas as gestantes. Ela é indicada para quem tem risco aumentado de pré-eclâmpsia — e a forma mais precisa de descobrir isso é o rastreio combinado de primeiro trimestre, feito entre 11 e 14 semanas.
Esse rastreio reúne informações da mãe (história e características), a pressão arterial medida com protocolo e o Doppler das artérias uterinas — um ultrassom que avalia o fluxo de sangue para o útero. O método mais completo, desenvolvido pela Fetal Medicine Foundation (FMF), acrescenta ainda marcadores bioquímicos no sangue (como PAPP-A, PlGF e beta-hCG livre), embora esses exames não sejam realizados de rotina no Brasil. Um cálculo combina esses dados e estima o risco individual de cada gestante.
Esse ponto é importante, e vale ser dito com franqueza: o benefício da aspirina foi demonstrado justamente na população selecionada por esse rastreio combinado. Escolher quem trata apenas pelos fatores de risco clássicos (idade, histórico, doenças prévias) é bem menos eficiente — esse critério isolado identifica uma parcela menor das gestantes que realmente desenvolveriam a doença.
Você pode entender melhor como essa avaliação funciona nas páginas sobre a translucência nucal e o rastreio de primeiro trimestre, o ultrassom morfológico de primeiro trimestre e o Doppler obstétrico, ou simular pela calculadora de rastreio de primeiro trimestre.
Há também situações em que fatores clínicos, por si só, já indicam a prevenção — como pré-eclâmpsia em gestação anterior, hipertensão crônica, doença renal, lúpus ou diabetes.
Quando começar e até quando
O benefício da aspirina depende de começar cedo. A evidência é consistente nesse ponto: quando iniciada até 16 semanas, ela reduz a pré-eclâmpsia pré-termo; quando iniciada depois disso, o efeito praticamente desaparece. Na prática, o ideal é começar logo após o rastreio de primeiro trimestre, por volta de 12 semanas.
O uso costuma ser mantido até perto do fim da gravidez — nos estudos e nas diretrizes brasileiras, até cerca de 36 semanas —, quando é suspenso.
Qual a dose — e por que à noite
“Baixa dose” aqui não é o comprimido que se toma para dor. É uma dose pequena, com efeito sobre as plaquetas e os vasos, e não com finalidade analgésica. A pesquisa define um patamar: para funcionar na prevenção, a aspirina precisa ser iniciada cedo e em dose de pelo menos 100 mg por dia — abaixo disso, o benefício não aparece.
Na prática, é assim que oriento: no Brasil, a apresentação de baixa dose é o comprimido de 100 mg, e existe também o de 81 mg. Para alcançar a faixa de dose que se mostrou eficaz nos estudos — o maior deles, o ASPRE, usou 150 mg —, costumo indicar dois comprimidos de 81 mg (162 mg) ou, alternativamente, dois de 100 mg (200 mg), tomados à noite. Não costumo usar fórmula manipulada. A dose exata é sempre individual e definida na consulta.
O horário noturno não é detalhe: estudos de cronoterapia sugerem que tomar a aspirina à noite potencializa o efeito preventivo.
É seguro para o bebê?
Em baixa dose, a aspirina tem um perfil de segurança favorável para a mãe e para o bebê — foi assim nos grandes estudos, sem aumento significativo de complicações no recém-nascido. Ela é suspensa perto do fim da gravidez, em torno de 36 semanas, como cuidado de rotina.
Como toda medicação, o uso é individualizado: alergia à aspirina, sangramentos ativos e algumas condições específicas precisam ser avaliados pelo seu médico antes de iniciar.
E o cálcio?
Durante anos, a suplementação de cálcio foi indicada para reduzir o risco de pré-eclâmpsia em gestantes com baixa ingestão do nutriente. Isso mudou: em março de 2026, a FEBRASGO e a Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (RBEHG) deixaram de recomendar o cálcio com essa finalidade específica, depois que uma revisão Cochrane com critérios metodológicos mais rigorosos não confirmou o efeito protetor. O cálcio ainda pode ser prescrito por outros motivos clínicos, avaliados individualmente — mas não como forma de prevenir a pré-eclâmpsia, e não substitui a aspirina.
O que a aspirina não faz
A aspirina reduz o risco — ela não o zera. E há um limite importante, que preferimos dizer com franqueza: a aspirina previne principalmente a pré-eclâmpsia pré-termo, a forma mais grave. Ela não reduz de forma significativa a pré-eclâmpsia que aparece a termo (perto ou depois de 37 semanas) — que, na verdade, corresponde à maioria dos casos.

Por isso a aspirina não substitui o pré-natal nem a vigilância ao longo da gravidez: o acompanhamento continua sendo essencial, mesmo tomando a medicação. É também por causa dessa lacuna — prever e enfrentar a forma a termo — que a pesquisa investiga novos marcadores de risco, como o Doppler das artérias oftálmicas.
Perguntas frequentes
Referências
- Rolnik DL, Wright D, Poon LC, et al. Aspirin versus placebo in pregnancies at high risk for preterm preeclampsia (ASPRE). N Engl J Med. 2017;377(7):613–622.
- Roberge S, Bujold E, Nicolaides KH. Aspirin for the prevention of preterm and term preeclampsia: systematic review and meta-analysis. Am J Obstet Gynecol. 2018;218(3):287–293.e1.
- FEBRASGO. Predição e prevenção da pré-eclâmpsia. FEBRASGO Position Statement, nº 1, jan. 2023.
- FIGO — Iniciativa sobre pré-eclâmpsia: rastreio e prevenção no primeiro trimestre (Poon LC et al., 2019).
- FEBRASGO/RBEHG — nova recomendação sobre cálcio na prevenção da pré-eclâmpsia (mar. 2026).
Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica presencial ou por telemedicina com avaliação individualizada.

