Medicina fetal
A aspirina previne a pré-eclâmpsia mais grave — mas não a que aparece perto do termo, que é a maioria dos casos. O Doppler da artéria oftálmica, um exame simples no fim da gravidez, é um marcador em estudo para justamente essa lacuna.
É aí que entra uma pergunta diferente: em vez de prevenir, como prever quem vai desenvolver a pré-eclâmpsia a termo, para vigiar mais de perto e decidir melhor o momento do parto? Um dos marcadores mais estudados para isso, hoje, é o Doppler da artéria oftálmica.
Por que o olho ajuda a prever a pré-eclâmpsia
A artéria oftálmica é um ramo direto da artéria carótida interna — o mesmo tronco que irriga o cérebro. Por estar tão próxima da circulação central da mãe e ser fácil de acessar (logo atrás da pálpebra), o fluxo nessa artéria funciona como uma “janela” para o estado dos vasos maternos. Na pré-eclâmpsia, em que há aumento da resistência dos vasos, esse fluxo se altera de forma característica.
O exame é simples, rápido (menos de um minuto), sem agulha e feito com o transdutor apoiado suavemente sobre a pálpebra fechada, ao final do ultrassom de rotina — com cuidados de segurança para o olho (potência reduzida).

O que se mede: a relação dos picos
A onda do Doppler da artéria oftálmica tem dois picos sistólicos. O que melhor se relaciona com a pré-eclâmpsia é a relação entre eles — o segundo pico dividido pelo primeiro (na literatura, PSV ratio). Quanto maior o segundo pico em relação ao primeiro, maior tende a ser o risco.
É importante entender o que isso não é: não é medir a “pressão do olho” nem um exame de vista. É uma leitura do fluxo sanguíneo materno. Para ter boa qualidade, mede-se pelo menos uma vez em cada olho e usa-se a média.

O que a evidência mostra às 35–37 semanas
O maior corpo de evidência vem do grupo da Fetal Medicine Foundation (Londres). No estudo de referência, com 2287 gestantes avaliadas entre 35 e 37 semanas, acrescentar a relação dos picos aos fatores de risco da mãe elevou a taxa de detecção da pré-eclâmpsia de cerca de 25% para 50% — e, para a pré-eclâmpsia iminente (que se manifesta em até 3 semanas), de ~32% para ~58%, mantendo 10% de exames falso-positivos.

Esses números foram depois validados de forma independente em um grupo maior, de mais de 6700 gestantes, com boa capacidade de discriminação (área sob a curva em torno de 0,80).
Um ponto prático interessante: combinado à pressão arterial e ao Doppler das artérias uterinas, esse “pacote biofísico” chegou a um desempenho semelhante ao de exames de sangue mais caros (como PlGF e sFlt-1) para prever a pré-eclâmpsia iminente — o que o torna atraente onde esses exames não estão disponíveis.
Como se encaixa na prática
A ideia não é “tratar” a partir desse exame, e sim ajustar a vigilância: quem tem risco mais alto de pré-eclâmpsia a termo pode ser acompanhado mais de perto no fim da gravidez, e o dado ajuda a discutir o momento mais seguro para o parto. Essa estratégia de “parto no tempo certo” guiada pelo risco está sendo formalmente testada em estudo clínico.
Na prática do meu consultório, entendo esse exame como parte de uma avaliação de fim de gravidez criteriosa e atualizada, sempre integrado à história, à pressão e aos demais dados — nunca isolado.
O que ainda não é
Vale a franqueza: o Doppler da artéria oftálmica é um marcador emergente, não uma rotina consolidada nem uma recomendação formal de diretriz. Quase toda a evidência de predição vem de um mesmo grupo de pesquisa; falta ampla adoção e validação por outros centros, e a estratégia de conduta a partir dele ainda está em investigação.
Além disso, ele exige técnica padronizada e treinamento, e seu maior valor aparece como complemento aos fatores maternos e às uterinas — ou como alternativa mais barata aos exames bioquímicos — e não como substituto de todo o rastreio. Por isso, aqui ele é apresentado como uma ferramenta promissora, com honestidade sobre seus limites.
Perguntas frequentes
Referências
- Sarno M, Wright A, Vieira N, et al. Ophthalmic artery Doppler in prediction of pre-eclampsia at 35–37 weeks’ gestation. Ultrasound Obstet Gynecol. 2020;56(5):717–724.
- Mansukhani T, Wright A, Arechvo A, et al. Ophthalmic artery Doppler at 36 weeks’ gestation in prediction of pre-eclampsia: validation and update of previous model. Ultrasound Obstet Gynecol. 2024;63(2):230–236.
- Nicolaides KH, Sarno M, Wright A. Ophthalmic artery Doppler in the prediction of preeclampsia. Am J Obstet Gynecol. 2022;226(2S):S1098–S1101.
- Gana N, Pittokopitou S, Solonos F, et al. Ophthalmic artery Doppler indices at 11–13 weeks of gestation in relation to early and late preeclampsia. J Clin Med. 2025;14:4811.
- de Melo PFMV, et al. Ophthalmic artery Doppler in the complementary diagnosis of preeclampsia: systematic review and meta-analysis. BMC Pregnancy Childbirth. 2023;23:343.
Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica presencial ou por telemedicina com avaliação individualizada.

