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Restrição de Crescimento Seletiva em Gêmeos (sFGR)
Cirurgia Fetal 9 min de leitura

Restrição de Crescimento Seletiva em Gêmeos (sFGR)

Dr. Rafael Bruns
Dr. Rafael Bruns MÉDICO · CRM-PR 18.582 / CRM-RS 58.559
· 9 min de leitura

Gestação gemelar · Medicina fetal

Quando um dos gêmeos cresce bem e o outro fica para trás, o diagnóstico pode ser restrição de crescimento seletiva. Entender de que tipo se trata — e se a placenta é compartilhada — muda todo o acompanhamento e o momento do parto.

Em uma frase: a restrição de crescimento seletiva (sFGR) é a diferença importante de tamanho entre dois gêmeos; em gêmeos que dividem a mesma placenta (monocoriônicos), o padrão do Doppler classifica o risco e orienta a conduta.

O que é restrição de crescimento seletiva

Em uma gravidez de gêmeos, é comum que os dois bebês tenham pesos parecidos. Quando um deles cresce de forma adequada e o outro fica significativamente para trás, falamos em restrição de crescimento seletiva — na sigla em inglês, sFGR (selective fetal growth restriction). A palavra “seletiva” indica justamente que a restrição afeta apenas um dos gêmeos.

Não se trata apenas de “um bebê menor”. A sFGR é um marcador de que algo — quase sempre ligado à placenta — está limitando o aporte de nutrientes a um dos fetos, e por isso exige um acompanhamento mais próximo do que uma gestação gemelar sem complicações. É diferente da restrição de crescimento fetal (RCIU) em bebê único, porque em gêmeos entra um fator decisivo: se a placenta é compartilhada ou não.

Ilustração de útero com dois gêmeos de tamanhos claramente diferentes, representando a restrição de crescimento seletiva
Na restrição de crescimento seletiva, um gêmeo cresce bem e o outro fica para trás. Ilustração: Dr. Rafael Bruns.

Por que um gêmeo cresce menos que o outro

A causa mais frequente, nos gêmeos que dividem a mesma placenta, é o compartilhamento placentário desigual: o bebê menor recebe uma porção significativamente menor da placenta, às vezes com o cordão inserido na borda ou nas membranas (inserção velamentosa), enquanto o outro fica com a maior parte.

Também é importante saber que gêmeos crescem de forma um pouco diferente de bebês únicos: a partir de cerca de 28–30 semanas, o crescimento médio dos gêmeos naturalmente desacelera em relação às curvas de bebê único. Por isso usamos, sempre que possível, curvas de referência específicas para gêmeos — do contrário, uma parcela grande de bebês saudáveis seria classificada erroneamente como “pequena”, gerando ansiedade e até antecipação desnecessária do parto.

Ilustração de placenta monocoriônica compartilhada de forma desigual, com anastomoses vasculares entre os dois gêmeos
Compartilhamento placentário desigual: a linha tracejada mostra a divisão desigual da placenta, e os vasos conectam as circulações dos dois gêmeos. Ilustração: Dr. Rafael Bruns.

Como se faz o diagnóstico

O diagnóstico é feito por ultrassom com Doppler, comparando os dois fetos ao longo do tempo. Os critérios internacionais de consenso consideram sFGR quando há:

Critério isolado

  • Peso estimado de um dos gêmeos abaixo do percentil 3.

Ou pelo menos 2 destes 3

  • Peso estimado abaixo do percentil 10;
  • Diferença de peso entre os gêmeos ≥ 25%;
  • Doppler da artéria umbilical do menor alterado (resistência aumentada).

A diferença de peso (discordância) igual ou maior que 25% é um dos sinais mais valorizados e, por si só, motivo para encaminhamento a um centro de medicina fetal. O Doppler obstétrico é a ferramenta central, tanto para o diagnóstico quanto para o acompanhamento.

Os três tipos (classificação de Gratacós)

Nos gêmeos que dividem a mesma placenta, a conduta depende do padrão do Doppler da artéria umbilical do bebê menor. Essa é a classificação de Gratacós, hoje o padrão mundial:

Classificação de Gratacós: tipos 1, 2 e 3 pelo padrão do Doppler da artéria umbilical em gêmeos com restrição de crescimento seletiva
TipoPadrão no DopplerO que costuma significar
Tipo 1Fluxo diastólico presente (normal)Menor risco de progressão; costuma evoluir bem com acompanhamento.
Tipo 2Fluxo diastólico ausente ou reverso, de forma persistentePior prognóstico; maior risco de progressão — exige vigilância estreita.
Tipo 3Fluxo diastólico intermitente (aparece e some)Comportamento mais imprevisível ao longo do tempo.
Importante: o tipo pode mudar ao longo da gestação. Um caso classificado hoje como tipo 1 pode evoluir, e vice-versa — por isso o acompanhamento é seriado, e não uma “foto” única.

Gêmeos que dividem placenta vs. placentas separadas

Essa distinção — definida idealmente no ultrassom do primeiro trimestre — muda tudo:

Placentas separadas (dicoriônicos)

  • Cada bebê tem sua própria placenta;
  • O que acontece com um não repercute diretamente no outro;
  • Em geral, a conduta é acompanhar de perto e definir o melhor momento do parto.

Placenta compartilhada (monocoriônicos)

  • Os dois dividem a mesma placenta e há conexões de vasos entre eles;
  • Uma intercorrência em um gêmeo pode afetar o outro;
  • Pode se sobrepor à síndrome de transfusão feto-fetal, exigindo diferenciação cuidadosa.

É nos monocoriônicos que a sFGR é mais delicada, porque as conexões vasculares tornam o quadro potencialmente perigoso para ambos os bebês — e é onde as opções de cirurgia fetal entram em cena.

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Tratamento: acompanhar, laser ou oclusão de cordão

Não existe uma resposta única: a conduta é individualizada, conforme a corionicidade, o tipo de Gratacós, a idade gestacional e a evolução do Doppler. Nos gêmeos monocoriônicos, há três caminhos possíveis:

  • Conduta expectante — acompanhar de perto e antecipar o parto no momento certo, com corticoide para amadurecer o pulmão e sulfato de magnésio para proteção neurológica quando indicado. É a escolha habitual no tipo 1.
  • Cirurgia a laser — coagulação das conexões de vasos na placenta, separando as circulações dos dois bebês. Considerada sobretudo nos tipos 2 e 3 quando a gravidez ainda está longe da viabilidade.
  • Oclusão seletiva de cordão — em situações graves e selecionadas, interrompe a circulação de um dos gêmeos para proteger o outro. É uma decisão difícil, sempre muito conversada com a família.
Regra geral: tipo 1 costuma ser acompanhado; tipos 2 e 3 são os que podem exigir intervenção. A decisão sempre pesa os riscos para os dois bebês e o tempo de gestação.

Quando o bebê nasce

O momento do parto é planejado caso a caso. Em linhas gerais, nos gêmeos monocoriônicos com sFGR, o tipo 1 costuma chegar mais perto do termo (por volta de 34–36 semanas), enquanto os tipos 2 e 3 tendem a nascer mais cedo (em torno de 32 semanas, ou antes se houver sinais de piora no Doppler). O objetivo é sempre equilibrar o risco de prematuridade do gêmeo maior com a segurança do menor.

Conduta e momento do parto por tipo de Gratacós na restrição de crescimento seletiva em gêmeos monocoriônicos

Por que procurar um especialista em medicina fetal

A restrição de crescimento seletiva reúne exatamente os pontos que exigem experiência: reconhecer a corionicidade, usar as curvas corretas, classificar o Doppler, diferenciar da síndrome de transfusão feto-fetal e, quando necessário, indicar cirurgia fetal no tempo certo. Toda gestação gemelar com diferença importante de crescimento merece avaliação em um centro de medicina fetal.

Dúvidas frequentes

Ter um gêmeo menor significa que ele tem algum problema?
Nem sempre. Uma pequena diferença de tamanho é comum e pode ser normal. O que preocupa é uma diferença importante (em geral ≥ 25%) ou um peso muito baixo, especialmente com Doppler alterado. Só a avaliação define se é apenas variação ou restrição seletiva.
Qual a diferença entre sFGR e a síndrome de transfusão feto-fetal?
São condições diferentes, embora ambas ocorram em gêmeos que dividem placenta e possam coexistir. Na sFGR o problema central é o crescimento desigual; na transfusão feto-fetal o problema é o desequilíbrio de líquido amniótico entre os bebês. Diferenciá-las é parte da avaliação especializada.
A sFGR sempre precisa de cirurgia?
Não. A maioria dos casos (especialmente o tipo 1) é acompanhada de perto sem cirurgia. As intervenções — laser ou oclusão de cordão — são reservadas para casos selecionados, geralmente tipos 2 e 3 e longe do termo.
Com que frequência preciso fazer ultrassom?
Depende da corionicidade e da gravidade. Gêmeos que dividem placenta são acompanhados com intervalos curtos (frequentemente a cada 1–2 semanas), e a periodicidade é ajustada conforme o Doppler. O seu especialista definirá o calendário do seu caso.

Referências

  1. Khalil A, et al. Consensus definition and essential reporting parameters of selective fetal growth restriction in twin pregnancy. Ultrasound Obstet Gynecol. 2019.
  2. Gratacós E, et al. A classification system for selective intrauterine growth restriction in monochorionic pregnancies according to umbilical artery Doppler. Ultrasound Obstet Gynecol. 2007.
  3. Buca D, et al. Perinatal outcome of monochorionic twin pregnancies complicated by selective fetal growth restriction: systematic review and meta-analysis. Ultrasound Obstet Gynecol. 2017.
  4. ISUOG Practice Guidelines: role of ultrasound in twin pregnancy. Ultrasound Obstet Gynecol.

Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica presencial ou por telemedicina com avaliação individualizada.

Dr. Rafael Bruns — Medicina Fetal
Dr. Rafael Bruns
Gin. e Obstetrícia
Medicina Fetal

Médico especialista em Ginecologia, Obstetrícia e Medicina Fetal. Atua com cirurgia fetal desde 2016 em Curitiba e Porto Alegre.

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