Curitiba — Doc Batel
Porto Alegre — Inst. Celso Rigo
CRM-PR 18.582 · RQE 12.169 / 238
CRM-RS 58.559 · RQE 45.076 / 45.079
Dr. Rafael Bruns
Onde atendo
Curitiba

Consultório Doc Batel

Av. Visc. de Guarapuava, 4628 — Batel

Hospital Nossa Sra. das Graças

Porto Alegre

Instituto Materno Fetal Celso Rigo

Av. Independência, 75

Hospital Nora Teixeira

Agendar consulta

CIRURGIA FETAL

Síndrome da Transfusão Feto-Fetal (STFF): diagnóstico, tratamento e cirurgia fetal a laser

A síndrome da transfusão feto-fetal (STFF) é uma complicação grave das gestações gemelares monocoriônicas, causada por conexões vasculares anormais na placenta compartilhada. Sem tratamento, a mortalidade pode se aproximar de 100% nos casos graves. A cirurgia fetal a laser — que coagula essas conexões — é hoje o tratamento de referência e mudou radicalmente o prognóstico dessa doença.

Em resumo

  • A STFF afeta 10-15% das gestações gemelares monocoriônicas e se manifesta geralmente entre 15 e 26 semanas
  • O diagnóstico é feito por ultrassom, com base na discrepância de líquido amniótico entre os gêmeos e alterações no Doppler
  • A cirurgia fetal a laser (fetoscopia) elimina a causa da doença ao coagular as anastomoses placentárias
  • O laser oferece sobrevida de ao menos um gemelar em 76% dos casos, contra 51% da amniodrenagem (Senat 2004, NEJM)
Ilustração da síndrome da transfusão feto-fetal mostrando gêmeos monocoriônicos com circulação placentária compartilhada
Representação esquemática da síndrome da transfusão feto-fetal: o feto receptor recebe excesso de sangue, por isso urina muito e tem muito líquido na sua bolsa enquanto o feto doador perde volume sanguíneo para o irmão e por isso urina pouco e tem pouco líquido na sua bolsa

O que é a Síndrome da Transfusão Feto-Fetal

A síndrome da transfusão feto-fetal — também conhecida pela sigla em inglês TTTS (twin-to-twin transfusion syndrome) — é uma complicação exclusiva das gestações gemelares monocoriônicas, ou seja, aquelas em que os gêmeos compartilham uma única placenta. Ela afeta entre 10% e 15% dessas gestações e costuma se manifestar entre 15 e 26 semanas de gestação.

Na transfusão feto-fetal, conexões vasculares anormais na superfície da placenta — chamadas anastomoses — criam um desequilíbrio no fluxo sanguíneo entre os dois fetos. Um dos gêmeos (o doador) perde volume de sangue para o outro (o receptor), de forma contínua e progressiva. Sem tratamento, a STFF grave pode levar ao óbito de ambos os bebês. Nos casos graves diagnosticados antes da 28ª semana, a mortalidade fetal pode superar 80% sem intervenção. A STFF é, por isso, considerada uma condição de elevada morbimortalidade fetal e neonatal — e uma das principais indicações de cirurgia fetal no mundo.

Justamente por causa dessa gravidade, a STFF foi uma das primeiras condições fetais para as quais se desenvolveu tratamento cirúrgico intrauterino — a cirurgia fetal a laser ou ablação de anastomoses vasculares. A possibilidade de intervir durante a gestação, eliminando a causa do problema na placenta, transformou o prognóstico dessa doença.

Uma história pessoal com a STFF

Meu primeiro contato com a transfusão feto-fetal foi em 2001, durante a residência. Uma paciente de 17 anos chegou com STFF grave — e os dois bebês não sobreviveram. Naquela época, o laser simplesmente não existia no Brasil. A impotência diante de uma doença para a qual já existia tratamento em outros países foi determinante na minha trajetória.

Em 2015, completei o Advanced Course in Fetoscopic Laser Surgery no Leiden University Medical Center, na Holanda, com o Prof. Dick Oepkes — um dos maiores especialistas mundiais em cirurgia fetal a laser. Do caso sem opção terapêutica à formação no centro que desenvolveu a técnica — essa trajetória resume o que a medicina fetal avançou em pouco mais de uma década.

Leia a história completa da STFF — da descoberta ao laser

Dr. Rafael Bruns recebendo certificado do Advanced Course in Fetoscopic Laser Surgery do Prof. Dick Oepkes no Leiden University Medical Center, 2015
Dr. Rafael Bruns recebendo certificado do Prof. Dick Oepkes no Leiden University Medical Center, 2015 · Ver certificado Clique para ampliar.

Linha do tempo — marcos na história da STFF

~2000 a.C.

Esaú e Jacó — relato bíblico possivelmente compatível com STFF (Ville 1997, Berger 2000). Ler mais ↓

1617

De Wikkelkinderen — pintura holandesa com possível representação visual da transfusão feto-fetal (Berger et al., Lancet 2000). Ler mais ↓

1875

Friedrich Schatz descreve a "terceira circulação" em placentas gemelares. Ler mais ↓

1886

Schatz publica a descrição completa da síndrome no Archiv für Gynäkologie.

1988

Julian De Lia realiza a primeira coagulação a laser das anastomoses placentárias por fetoscopia (FLOC). Ler mais ↓

1999

Rubén Quintero publica o sistema de estadiamento em 5 estágios (J Perinatol).

2001

Dr. Rafael Bruns acompanha seu primeiro caso de STFF durante a residência — perda dos dois bebês, sem laser disponível no Brasil. Ler mais ↓

2004

Senat et al. publicam no NEJM o ensaio randomizado que prova a superioridade do laser sobre a amniodrenagem. Ler mais ↓

2011

Dr. Rafael Bruns e Dr. Fábio Peralta realizam a primeira cirurgia fetal fetoscópica para STFF do Sul do Brasil — procedimento inédito na região.

Jornal HC — foto Jornal HC — edição completa

2014

Técnica de Solomon validada em ensaio clínico (Slaghekke et al., Lancet) — Leiden como centro de referência. Ler mais ↓

2015

Dr. Rafael Bruns completa o Advanced Course in Fetoscopic Laser Surgery em Leiden, com o Prof. Dick Oepkes — um dos maiores especialistas mundiais em cirurgia fetal a laser.

2016

Primeira cirurgia fetal em Curitiba — marco importante na consolidação do serviço de cirurgia fetal no Paraná.

Assistir reportagem


Como a STFF acontece na placenta

Para entender a transfusão feto-fetal, é preciso entender a placenta monocoriônica. Em gestações gemelares monocoriônicas, os dois bebês compartilham uma única placenta. Na superfície dessa placenta, existem vasos que conectam os territórios de cada feto — as chamadas anastomoses vasculares.

Em uma gestação monocoriônica sem complicações, essas conexões costumam ser equilibradas: o que um feto envia ao outro, o outro devolve por outra via. O fluxo nos vasos sanguíneos placentários e no cordão umbilical de cada feto permanece estável, sem diferença significativa de volume entre os dois. Quando esse equilíbrio se rompe — predominando anastomoses arteriovenosas em uma só direção — o fluxo sanguíneo passa a favorecer sistematicamente um dos gêmeos.

Ilustração de placenta monocoriônica mostrando anastomoses arteriovenosas entre os territórios dos gêmeos na síndrome da transfusão feto-fetal
Placenta monocoriônica com anastomoses vasculares (artérias em vermelho, veias em azul) entre os territórios dos gêmeos. Ilustração da coleção particular do Dr. Rafael Bruns. Clique para ampliar.

Feto doador e feto receptor: o que acontece com cada um

Feto doador: perde volume sanguíneo progressivamente. Seus rins produzem menos urina, o líquido amniótico ao seu redor diminui drasticamente (oligodrâmnio) e ele pode ficar aprisionado pela membrana — o chamado stuck twin (gêmeo preso). Quando temos um stuck twin, o gemelar aprisionado fica como se tivesse sido "embalado a vácuo" pela membrana. A membrana que separa os gêmeos torna-se de difícil identificação por estar comprimida contra o corpo do gêmeo doador. Há risco de desidratação, anemia e insuficiência renal.

Feto receptor: recebe excesso de sangue. Seus rins tentam compensar produzindo mais urina, acumulando líquido amniótico em excesso (polidrâmnio). A sobrecarga circulatória pode levar à insuficiência cardíaca, hidropsia fetal e, em última instância, ao óbito.

É essa dinâmica — um feto perdendo e o outro recebendo demais — que dá nome à síndrome. O problema não está nos fetos em si, mas nas conexões vasculares da placenta que compartilham. Apesar dos pais terem grande preocupação com o feto doador, na verdade em geral é o receptor que tem um quadro mais grave pois pode apresentar insuficiência cardíaca em função do aumento de volume sanguíneo.


Quais são os sinais da STFF no ultrassom

Como identificar a síndrome de transfusão feto-fetal precocemente

O diagnóstico da síndrome da transfusão feto-fetal é feito por ultrassom. Os sinais são característicos e, em mãos experientes, permitem identificar a doença com segurança. Os principais achados incluem:

  • Discrepância no líquido amniótico: o sinal mais marcante — polidrâmnio (excesso de líquido) no saco do receptor e oligodrâmnio (redução acentuada) no saco do doador
  • Bexiga do doador não visualizada: como o doador produz pouca urina, a bexiga pode não ser identificada ao ultrassom
  • Stuck twin (gêmeo preso): o doador fica imobilizado pela membrana contra a parede uterina, pela ausência de líquido ao seu redor
  • Alterações no Doppler: fluxo ausente ou reverso na artéria umbilical do doador, pulsatilidade anormal no ducto venoso
  • Sinais de sobrecarga cardiovascular no receptor: cardiomegalia, regurgitação de valvas cardíacas, hidropsia fetal nos casos avançados

É por isso que, em toda gestação gemelar monocoriônica, o acompanhamento ultrassonográfico deve ser feito a cada duas semanas a partir de 16 semanas — para detectar a STFF o mais precocemente possível, quando o tratamento tem melhores resultados.


Classificação de Quintero

Em 1999, o médico Rubén Quintero e colaboradores publicaram no Journal of Perinatology um sistema de estadiamento que até hoje é a referência para classificar a gravidade da STFF. São cinco estágios progressivos:

EstágioAchados
IDiscrepância de líquido amniótico (polidrâmnio/oligodrâmnio), porém a bexiga do doador ainda é visível
IIBexiga do feto doador não visualizada ao ultrassom
IIIAlterações no Doppler — fluxo ausente/reverso na artéria umbilical, pulsatilidade anormal no ducto venoso ou veia umbilical
IVHidropsia fetal — acúmulo anormal de líquido em cavidades do corpo do feto (geralmente no receptor)
VÓbito de um ou ambos os fetos

O estadiamento de Quintero orienta diretamente a decisão terapêutica. A partir do estágio II, a cirurgia fetal a laser costuma ser indicada. No estágio I, a conduta expectante — com acompanhamento ultrassonográfico rigoroso a cada 1–2 semanas — pode ser adotada quando não há sinais de deterioração clínica, pois uma parcela dos casos estabiliza espontaneamente. No estágio II, a bexiga do doador não é visualizada ao ultrassom, caracterizando o chamado stuck twin — o gêmeo doador fica imobilizado pela membrana, sem líquido ao seu redor. A partir do estágio III, as alterações dopplervelocimétricas nos vasos umbilicais ou no ducto venoso indicam comprometimento hemodinâmico significativo e reforçam a indicação cirúrgica. Nos casos de estágios III e IV com inviabilidade técnica do laser ou gestação muito precoce, o feticídio seletivo pode ser discutido como alternativa para preservar o gemelar saudável — uma decisão que envolve considerações éticas, clínicas e familiares complexas.

Agende sua consulta

Avaliação especializada em STFF

Recebeu diagnóstico de STFF ou tem gestação gemelar monocoriônica? O momento de avaliar é agora.


Quando a cirurgia fetal a laser é indicada

A cirurgia fetal a laser — tecnicamente chamada de fetoscopia com coagulação a laser das anastomoses placentárias — é o tratamento de referência para a STFF grave. A indicação principal é a transfusão feto-fetal a partir do estágio II de Quintero, diagnosticada antes de 26 semanas de gestação. A janela terapêutica ideal para o laser situa-se entre 18 e 26 semanas — antes desse período o acesso fetoscópico é tecnicamente mais difícil; após esse limite, o risco de parto prematuro imediato aumenta. Nos casos com comprometimento cardiovascular do receptor — como insuficiência das valvas atrioventriculares e cardiomegalia — a avaliação ecocardiográfica fetal integra o planejamento cirúrgico.

Como o procedimento funciona

Por meio de uma pequena incisão no abdômen materno, o cirurgião fetal introduz um fetoscópio (uma câmera de fibra óptica de poucos milímetros) até a cavidade amniótica. O procedimento é realizado com anestesia local ou sedação leve, sem necessidade de anestesia geral para a mãe na maioria dos casos. A comunicação clara com a família sobre o que esperar antes, durante e após o procedimento é parte essencial do cuidado — o tempo cirúrgico médio é de 60 a 90 minutos e a internação costuma ser breve. Através do fetoscópio, visualiza diretamente a superfície da placenta e identifica as anastomoses vasculares — as conexões responsáveis pelo desequilíbrio de fluxo entre os gêmeos.

Com o laser, essas anastomoses são coaguladas uma a uma. O objetivo é separar funcionalmente as duas circulações fetais, eliminando a causa da doença — não apenas tratando suas consequências.

Procedimento de cirurgia fetal fetoscópica para tratamento da Síndrome de Transfusão Feto-Fetal (STFF) — Dr. Rafael Bruns e equipe

Técnica de Solomon

A técnica de Solomon, validada em ensaio clínico randomizado em 2014 (Slaghekke et al., Lancet), acrescentou um passo importante ao procedimento: após coagular cada anastomose individualmente, o cirurgião traça uma linha contínua de coagulação ao longo de todo o equador vascular da placenta. Isso reduz o risco de STFF recorrente e de sequência anemia-policitemia (TAPS), que podem ocorrer quando pequenas anastomoses residuais escapam à coagulação seletiva.

Técnica de Solomon: após coagular cada anastomose individualmente, o cirurgião traça uma linha contínua de coagulação ao longo do equador vascular da placenta.

Por que o laser é diferente da amniodrenagem

A amniodrenagem (retirada do excesso de líquido amniótico) foi por muito tempo o único recurso disponível. Ela alivia os sintomas — reduz a pressão do polidrâmnio — mas não trata a causa. As anastomoses continuam ativas, o desequilíbrio persiste e o procedimento precisa ser repetido várias vezes. O laser, ao contrário, atua diretamente sobre a origem do problema.


Resultados do tratamento — o que os dados mostram

O estudo que estabeleceu definitivamente a superioridade do laser sobre a amniodrenagem foi o ensaio clínico randomizado publicado por Senat e colaboradores no New England Journal of Medicine em 2004. Foi o primeiro (e até hoje o principal) estudo randomizado comparando as duas abordagens na STFF grave. Os resultados foram tão expressivos que o estudo foi interrompido precocemente — o comitê de segurança considerou antiético continuar randomizando pacientes para amniodrenagem.

DesfechoAmniodrenagemLaser fetoscópico
Como funcionaRemove excesso de líquidoCoagula anastomoses — elimina a causa
Sessões necessáriasMúltiplas (média 2,6)Uma sessão (em geral)
Sobrevida ≥1 gemelar (6 meses)51%76%
Neurologia normal (6 meses)31%52%
Leucomalácia periventricular14%6%
Idade gestacional mediana ao parto29,0 semanas33,3 semanas
DisponibilidadeAmplaCentros especializados

Fonte: Senat MV et al. N Engl J Med. 2004;351:136-44.

Os números falam por si. A cirurgia a laser praticamente dobra a chance de desenvolvimento neurológico normal aos 6 meses (52% vs 31%), reduz pela metade a chance de lesão cerebral (leucomalácia periventricular de 6% vs 14%) e permite que os bebês permaneçam no útero por mais tempo — uma diferença mediana de mais de 4 semanas na idade gestacional ao parto. Em uma faixa de prematuridade em que cada semana a mais representa ganhos reais de maturidade pulmonar e neurológica, essa diferença é clinicamente muito significativa. Por esses resultados, a fetoscopia com ablação a laser das anastomoses placentárias é hoje considerada o padrão-ouro no tratamento da STFF grave — recomendada pelas principais diretrizes internacionais de medicina fetal. A redução do risco de leucomalácia periventricular (de 14% para 6%) é particularmente relevante: essa lesão cerebral está diretamente associada a sequelas neurológicas graves, incluindo paralisia cerebral, que afetam a qualidade de vida a longo prazo.

Fale com o especialista

Precisa de uma segunda opinião?

Se você recebeu diagnóstico de STFF ou precisa de uma segunda opinião, converse com a equipe para avaliar as opções de tratamento.


Acompanhamento pré-natal na gestação gemelar monocoriônica

Toda gestação gemelar monocoriônica — independentemente de apresentar ou não sinais de STFF — exige acompanhamento diferenciado. O protocolo recomendado inclui:

  • Ultrassom a cada 2 semanas a partir de 16 semanas de gestação, com medida do maior bolsão de líquido amniótico na bolsa de cada um dos fetos
  • Avaliação com Doppler da artéria umbilical e do ducto venoso quando indicado
  • Monitoramento do crescimento fetal com atenção à discordância entre os gêmeos
  • Avaliação da bexiga de ambos os fetos em cada exame

Esse acompanhamento rigoroso é o que permite identificar a STFF precocemente — muitas vezes ainda no estágio I — e encaminhar a gestante a um centro de referência a tempo de realizar o laser, quando indicado.

Mesmo após o tratamento a laser bem-sucedido, a prematuridade continua sendo um risco importante. A gestação monocoriônica tratada para STFF requer vigilância contínua até o parto, com atenção à possibilidade de recorrência, sequência anemia-policitemia (TAPS) e restrição de crescimento seletiva. A sequência anemia-policitemia pós-laser — também chamada TAPS (twin anemia-polycythemia sequence) — ocorre quando anastomoses vasculares residuais de pequeno calibre permanecem funcionantes após a coagulação. Nesse caso, há transferência lenta e contínua de sangue pelos vasos sanguíneos placentários remanescentes, sem os sinais clássicos de discrepância de líquido amniótico. O diagnóstico é feito pela avaliação Doppler da artéria cerebral média de ambos os fetos, que revela discrepância nos picos de velocidade sistólica.

Quando procurar avaliação urgente para STFF

  • Polidrâmnio de início rápido em gestação gemelar
  • Discrepância significativa de líquido amniótico entre as duas bolsas
  • Bexiga do doador não visualizada no ultrassom
  • Alterações no Doppler em gestação monocoriônica
  • Diagnóstico ou suspeita de STFF em qualquer estágio

Na STFF, o timing importa. Quanto antes o encaminhamento ao especialista, mais opções terapêuticas.


A história da STFF — da descoberta ao laser

A história da síndrome da transfusão feto-fetal é a história de uma doença antiga que só recentemente passou a ter tratamento real. Conhecida há séculos, descrita formalmente no século XIX, ela permaneceu sem terapia efetiva até o final do século XX — e sem comprovação científica definitiva até 2004.

Das escrituras à ciência: os primeiros registros

O relato mais antigo que pode corresponder à STFF remonta à narrativa bíblica de Esaú e Jacó. Segundo o Gênesis, Esaú nasceu avermelhado e peludo, enquanto Jacó era pálido e menor. Ville (1997) e Berger (2000) sugeriram que essa descrição — dois gêmeos com características opostas ao nascimento — poderia ser compatível com a síndrome. É uma hipótese, naturalmente, mas ilustra o quão antiga pode ser essa condição.

Em 2000, Berger e colaboradores publicaram no Lancet um artigo identificando o que pode ser a primeira representação visual da STFF: a pintura holandesa De Wikkelkinderen (1617), que mostra dois recém-nascidos gêmeos com tamanhos e colorações claramente diferentes — um pletórico e outro pálido. A análise da obra, à luz do conhecimento médico atual, é consistente com transfusão feto-fetal.

Friedrich Schatz e a "terceira circulação"

O primeiro a descrever cientificamente o fenômeno foi o obstetra alemão Friedrich Schatz. Entre 1875 e 1886, Schatz estudou placentas de gestações gemelares e descreveu o que chamou de "terceira circulação" — um sistema de vasos que conectava os dois territórios fetais na placenta compartilhada. Sua publicação de 1886 no Archiv für Gynäkologie é considerada a descrição fundadora da doença.

Julian De Lia e o primeiro laser

Por mais de um século após Schatz, a STFF permaneceu sem tratamento específico. A amniodrenagem — retirada do excesso de líquido — aliviava os sintomas mas não impedia a progressão da doença. Em 1988, o cirurgião americano Julian De Lia realizou a primeira coagulação a laser das anastomoses placentárias por fetoscopia, desenvolvendo a técnica que viria a ser conhecida como FLOC (Fetoscopic Laser Occlusion of Chorioangiopagus vessels). Foi a primeira vez que se tentou eliminar a causa da doença, e não apenas suas consequências.

A consolidação europeia

Ao longo dos anos 1990, centros europeus refinaram e consolidaram a técnica. Yves Ville e Kypros Nicolaides em Londres, Kurt Hecher em Hamburgo — esses grupos acumularam casuísticas progressivamente maiores e demonstraram que o laser era viável, reprodutível e potencialmente superior à amniodrenagem. Ville e colaboradores publicaram em 1998 no British Journal of Obstetrics and Gynaecology resultados que reforçaram a viabilidade do método.

Em 1999, Rubén Quintero publicou seu sistema de estadiamento — os cinco estágios que organizam a gravidade da STFF e orientam a indicação cirúrgica. Esse sistema trouxe uma linguagem comum para descrever a doença e permitiu comparar resultados entre centros.

Senat 2004 — a prova definitiva

A evidência definitiva veio em 2004, com o estudo randomizado de Senat e colaboradores publicado no New England Journal of Medicine. Pela primeira vez, laser e amniodrenagem foram comparados em um ensaio clínico controlado. Os resultados foram tão favoráveis ao laser que o estudo foi interrompido antes do previsto — o comitê de ética considerou que não era justificável continuar oferecendo amniodrenagem como alternativa. A partir desse estudo, o laser se tornou o tratamento padrão para STFF grave em todo o mundo.

Solomon 2014 — o aperfeiçoamento da técnica

Em 2014, o grupo de Leiden (Slaghekke, Lopriore, Lewi e colaboradores, incluindo Dick Oepkes) publicou no Lancet o ensaio clínico que validou a técnica de Solomon — a coagulação contínua ao longo do equador vascular placentário, além da coagulação seletiva de cada anastomose. Esse refinamento reduziu as taxas de recorrência de STFF e de sequência anemia-policitemia pós-laser.

A história da STFF é a história de uma doença antiga que só recentemente passou a ter tratamento real. Na transfusão feto-fetal, tempo, diagnóstico correto e experiência da equipe fazem diferença concreta.

Uma história pessoal com a STFF

Meu primeiro contato com a síndrome da transfusão feto-fetal foi em 2001, durante a residência em ginecologia e obstetrícia. Uma paciente de 17 anos, acompanhada pelo Dr. Beduschi, chegou com diagnóstico de STFF grave. Os dois bebês não sobreviveram. Naquela época, o laser para STFF simplesmente não existia no Brasil. A única opção disponível era a amniodrenagem — que aliviava temporariamente os sintomas, mas não tratava a causa. Foi uma perda que marcou.

Carreguei esse caso por anos. A impotência diante de uma doença para a qual já existia tratamento em outros países — mas não aqui — foi determinante na minha trajetória.

Em outubro de 2015, tive a oportunidade de fazer o Advanced Course in Fetoscopic Laser Surgery no Leiden University Medical Center, na Holanda, sob orientação do Prof. Dick Oepkes — um dos maiores especialistas mundiais em cirurgia fetal a laser e coautor do estudo que validou a técnica de Solomon. Leiden é, historicamente, um dos centros de referência mundial em tratamento de STFF.

Do caso sem opção terapêutica em 2001 ao treinamento no centro que ajudou a desenvolver a técnica — essa trajetória resume, em escala pessoal, o que a medicina fetal conseguiu avançar em pouco mais de uma década.

Fotografia de placenta monocoriônica com anastomoses vasculares evidenciadas por injeção de contraste em caso de síndrome da transfusão feto-fetal
Placenta monocoriônica com anastomoses vasculares evidenciadas por injeção de contraste. Imagem da coleção particular do Dr. Rafael Bruns, de um caso de STFF. Clique para ampliar.

Acompanhamento especializado

Gestação gemelar monocoriônica

Gestação gemelar monocoriônica requer acompanhamento especializado desde o início. Converse com a equipe para planejar o acompanhamento.


Perguntas frequentes

O que é a síndrome da transfusão feto-fetal (STFF)?

A STFF é uma complicação grave das gestações gemelares monocoriônicas (quando os gêmeos compartilham uma única placenta). Conexões vasculares anormais na placenta — chamadas anastomoses — criam um desequilíbrio no fluxo sanguíneo entre os dois fetos. Um deles (o doador) perde volume progressivamente, enquanto o outro (o receptor) recebe em excesso. Sem tratamento, a mortalidade nos casos graves pode se aproximar de 100%. Com o tratamento a laser, a sobrevida de ao menos um gemelar chega a 76% (Senat 2004).

Toda gestação gemelar pode ter STFF?

Não. A STFF ocorre exclusivamente em gestações gemelares monocoriônicas — aquelas em que os dois bebês compartilham uma única placenta. Isso acontece apenas em gêmeos idênticos (monozigóticos) e apenas quando a divisão do embrião ocorre de forma a resultar em uma placenta comum. Gestações gemelares dicoriônicas (cada bebê com sua própria placenta) não têm risco de STFF. Por isso, determinar a corionicidade no primeiro trimestre é fundamental.

Como saber se os gêmeos dividem a mesma placenta?

A corionicidade (se a gestação é monocoriônica ou dicoriônica) é determinada por ultrassom no primeiro trimestre, idealmente entre 11 e 14 semanas. Os sinais avaliados incluem o número de massas placentárias e, principalmente, a espessura e a morfologia da membrana entre os sacos gestacionais — o chamado "sinal do lambda" (dicoriônica) ou "sinal do T" (monocoriônica). Essa informação é essencial para definir o acompanhamento correto da gestação gemelar.

Quais são os sinais da STFF no ultrassom?

O sinal mais característico é a discrepância de líquido amniótico entre os dois sacos: polidrâmnio (excesso) no receptor e oligodrâmnio (redução importante) no doador. Outros achados incluem a bexiga do doador não visualizada, o "stuck twin" (gêmeo preso à membrana), alterações no Doppler das artérias umbilicais e do ducto venoso, e sinais de sobrecarga cardiovascular no receptor. É por isso que gestações monocoriônicas precisam de ultrassom a cada 2 semanas a partir de 16 semanas.

Qual é a diferença entre amniodrenagem e laser no tratamento da STFF?

A amniodrenagem remove o excesso de líquido amniótico do saco do receptor, aliviando temporariamente a pressão. Porém, não trata a causa — as anastomoses continuam ativas e o procedimento costuma precisar ser repetido (média de 2,6 sessões). O laser fetoscópico, por outro lado, coagula diretamente as anastomoses vasculares na placenta, eliminando a origem do desequilíbrio. O estudo de Senat 2004 mostrou que o laser é superior em todos os desfechos medidos: sobrevida (76% vs 51%), neurologia normal (52% vs 31%) e idade gestacional ao parto (33,3 vs 29,0 semanas).

O laser garante a sobrevida dos dois gêmeos?

Não há garantia de sobrevida de ambos. O laser é o melhor tratamento disponível, mas a STFF é uma doença grave. Nos dados de Senat 2004, a sobrevida de ao menos um gemelar aos 6 meses foi de 76% no grupo tratado com laser. A sobrevida de ambos os gêmeos é menor — varia entre 40% e 60% conforme a série. Fatores como o estágio da doença no momento do tratamento, a idade gestacional e a experiência da equipe influenciam diretamente os resultados. O importante é que, sem o laser, os desfechos são significativamente piores.

STFF tem cura?

A cirurgia a laser é curativa no sentido de que elimina a causa da doença — as anastomoses placentárias responsáveis pelo desequilíbrio. Após o laser bem-sucedido, as duas circulações fetais ficam independentes e a transfusão feto-fetal não se repete (quando são utilizadas técnicas como a de Solomon, que minimiza anastomoses residuais). No entanto, a gestação monocoriônica continua sendo de alto risco e requer acompanhamento rigoroso até o parto. Prematuridade, restrição de crescimento e outras complicações continuam sendo possíveis.

Onde é possível fazer o laser para STFF no Brasil?

No Brasil, a cirurgia fetal a laser para STFF é realizada em poucos centros especializados, geralmente vinculados a hospitais universitários ou centros de referência em medicina fetal. O procedimento exige equipamento específico (fetoscópio, laser), equipe treinada e estrutura hospitalar adequada. O Dr. Rafael Bruns, com formação no Leiden University Medical Center, atende gestantes em Curitiba e Porto Alegre. Para gestantes de outras cidades, o primeiro passo pode ser uma teleconsulta com envio prévio dos exames para avaliação e orientação.

Referências

  1. Schatz F. Eine besondere Art von einseitiger Polyhydramnie mit anderseitiger Oligohydramnie bei eineiigen Zwillingen. Arch Gynäkol. 1886;27:58-76.
  2. Berger HM, de Waard F, Molenaar Y. A case of twin-to-twin transfusion in 1617. Lancet. 2000;356:847-48.
  3. Quintero RA, Morales WJ, Allen MH, et al. Staging of twin-twin transfusion syndrome. J Perinatol. 1999;19:550-5.
  4. Senat MV, Deprest J, Boulvain M, et al. Endoscopic laser surgery versus serial amnioreduction for severe twin-to-twin transfusion syndrome. N Engl J Med. 2004;351:136-44.
  5. Slaghekke F, Lopriore E, Lewi L, et al. Fetoscopic laser coagulation of the vascular equator versus selective coagulation for twin-to-twin transfusion syndrome: an open-label randomised controlled trial. Lancet. 2014;383(9935):2144-51.
  6. Ville Y, Hecher K, Gagnon A, et al. Endoscopic laser coagulation in the management of severe twin-to-twin transfusion syndrome. Br J Obstet Gynaecol. 1998;105:446-53.
Dr. Rafael Bruns
Dr. Rafael Bruns Gin. e Obstetrícia Medicina Fetal

Médico especialista em Medicina Fetal, com atuação em Curitiba e Porto Alegre. Realiza cirurgia fetal, ultrassonografia especializada, procedimentos invasivos como amniocentese e biópsia de vilo corial, além do acompanhamento de gestações de alto risco.

CRM-PR 18.582
RQE PR 12.169 · RQE PR 238
CRM-RS 58.559
RQE RS 45.076 · RQE RS 45.079

Conteúdo com finalidade educativa. Não substitui avaliação médica individualizada. Diagnóstico e tratamento dependem de consulta presencial ou por telemedicina.