Medicina fetal
O comprimento do colo do útero, medido por ultrassom no meio da gravidez, é hoje o melhor sinal para antecipar o risco de parto prematuro espontâneo. E, quando o colo é curto, existe o que fazer — com uma primeira linha bem definida.
O que é colo curto
O colo do útero é a “porta” da gestação: durante a gravidez ele deve permanecer longo e fechado, e só perto do parto começa a encurtar e a abrir. Quando essa porta encurta cedo demais, o risco de o bebê nascer antes da hora aumenta.
Na prática, chamamos de colo curto um colo que mede 25 mm (2,5 cm) ou menos na avaliação por ultrassom transvaginal no meio da gravidez. Esse é o corte usado internacionalmente para decidir quando iniciar uma prevenção em gestação de um bebê só. Importante: colo curto não é uma doença nem uma sentença — é um sinal de alerta que orienta o acompanhamento.
Por que o colo curto aumenta o risco
A relação entre o comprimento do colo e o parto prematuro é contínua e inversa: quanto mais curto o colo, maior o risco — não existe um “interruptor” que liga do nada. Isso foi demonstrado num estudo clássico de referência (Iams, 1996), com quase 3 mil gestantes avaliadas por volta de 24 semanas, em que o colo médio ficava em torno de 35 mm.
Para dar concretude aos números, ajuda entender o que é percentil: é a posição de uma medida numa fila ordenada de 100 gestantes. O percentil 10, por exemplo, marca as 10% com o colo mais curto. Nesse estudo, quanto mais o colo caía nessa fila, mais o risco subia de forma progressiva.
Traduzindo para o corte que usamos hoje: com o colo ≤ 25 mm, o risco de parto antes de 35 semanas fica em torno de 18%; com o colo ≤ 15 mm, sobe para cerca de 50%. Ou seja: a maioria dos colos de 25 mm não termina em parto prematuro — mas o risco já é alto o bastante para justificar agir. Para estimar seu risco de forma orientada, você pode conversar com seu médico usando a calculadora de risco de parto prematuro.
Como e quando se mede
A medida confiável do colo é feita por ultrassom transvaginal — não pelo ultrassom de barriga, que subestima ou superestima o colo. Segundo a diretriz internacional de ultrassom em obstetrícia (ISUOG, 2022), a técnica correta exige bexiga vazia, o colo ocupando boa parte da tela, e pelo menos três medidas em linha reta entre os orifícios interno e externo; registra-se a menor medida tecnicamente correta.
O melhor momento é entre 18 e 24 semanas, aproveitando a mesma consulta do ultrassom morfológico de segundo trimestre. Nesse exame, além de avaliar a anatomia do bebê, é possível medir o colo e identificar precocemente quem se beneficia de prevenção. Em gestantes com gravidez de alto risco — como histórico de parto prematuro anterior — esse cuidado é ainda mais importante.
Como prevenir o parto prematuro
A boa notícia é que colo curto tem conduta baseada em evidência. Aqui vale separar o que é primeira linha do que é reservado a situações específicas.

Progesterona vaginal — a primeira linha
A progesterona vaginal é o tratamento de escolha para colo curto em gestação de um bebê só. Antes de ver os números, uma tradução rápida de duas siglas que aparecem em estudos: RR (risco relativo) compara o risco no grupo tratado com o do grupo não tratado — um RR de 0,56 significa cerca de 44% menos casos com o tratamento; e OR (razão de chances) é uma medida parecida, também indicando redução quando fica abaixo de 1.
Vários estudos sustentam essa indicação: Fonseca 2007 mostrou redução do parto antes de 34 semanas (RR 0,56) em colos muito curtos; Hassan 2011 reduziu o parto antes de 33 semanas (RR 0,55); e a meta-análise de dados individuais de Romero 2018 confirmou o benefício em colos ≤ 25 mm (RR 0,62), com melhora da saúde do recém-nascido e sem prejuízo ao neurodesenvolvimento avaliado aos 2 anos. A grande análise EPPPIC 2021 reforçou que, em gestação única de alto risco, a via vaginal é a de escolha, com benefício maior justamente no colo curto — e que em gemelares a progesterona não mostrou o mesmo efeito. Por fim, a síntese comparativa de Care 2022 colocou a progesterona vaginal como a intervenção com maior certeza de benefício (OR 0,50, alta certeza).
Cerclagem — para um subgrupo específico
A cerclagem (um ponto cirúrgico que reforça o colo) tem indicação bem delimitada: colo curto menor que 25 mm em quem já teve parto prematuro espontâneo anterior. Nesse subgrupo, a meta-análise de Berghella 2011 mostrou redução do parto antes de 35 semanas (RR 0,70), com efeito maior quanto mais curto o colo. Ela não é indicada por colo curto isolado, sem esse histórico.
Pessário — evidência controversa
O pessário (um anel de silicone posicionado ao redor do colo) tem evidência conflitante. Um estudo (Goya 2012) foi positivo (OR 0,18), enquanto um estudo maior (Nicolaides 2016) foi negativo, sem benefício. Por isso ele permanece uma opção discutível, reservada a casos selecionados e decisão individualizada.
O sludge (barro amniótico) como sinal associado
Às vezes, junto do colo curto, o ultrassom mostra o chamado sludge, ou “barro amniótico” — pontos densos flutuando no líquido perto do colo, associados a inflamação/infecção intra-amniótica. Quando sludge e colo curto (< 25 mm) aparecem juntos, o risco de parto muito prematuro se soma de forma expressiva (na literatura, uma associação da ordem de OR 14,8). Vale a pena entender o que ele significa e o que fazer no artigo dedicado ao sludge (barro amniótico) no ultrassom.
Prematuridade e cirurgia fetal
Há um ângulo que poucos discutem com franqueza: na cirurgia fetal, a prematuridade é, ela mesma, o principal preço a pagar. A complicação-assinatura desses procedimentos é a rotura prematura de membranas (RPMO) — a bolsa que se rompe antes da hora — levando a parto antecipado. O benefício da cirurgia precisa, portanto, superar esse risco.

No reparo aberto pré-natal da mielomeningocele (estudo MOMS, Adzick 2011), a correção intraútero reduz a necessidade de derivação e melhora a marcha da criança — mas ao custo de prematuridade: RPMO em cerca de 46% dos casos e parto médio por volta de 34 semanas. Já no laser fetoscópico da síndrome de transfusão feto-fetal, a RPMO iatrogênica gira em torno de 23%, subindo quando se usa cânula de maior calibre ou quando há separação das membranas (separação corioamniótica). Entender e minimizar esse risco é parte central do trabalho em cirurgia fetal.
O que ainda não é
Vale a franqueza. Nem todo colo curto termina em parto prematuro — a maioria dos colos de 25 mm chega a termo, e o número serve para orientar vigilância e tratamento, não para assustar. Colo curto é um marcador de risco, não um diagnóstico de parto prematuro.
Também é honesto dizer que rastrear o colo em todas as gestantes ou apenas nas de maior risco (por exemplo, com parto prematuro anterior) é uma decisão que varia entre serviços e casos — a diretriz apoia medir e tratar quando o colo é ≤ 25 mm, mas o desenho do rastreio é individual. E, por fim, a medida tem técnica: só o ultrassom transvaginal feito corretamente dá um número confiável para decidir conduta.
Perguntas frequentes
Referências
- Iams JD, Goldenberg RL, Meis PJ, et al. The length of the cervix and the risk of spontaneous premature delivery. N Engl J Med. 1996;334(9):567–572. PMID 8569824.
- Coutinho CM, Sotiriadis A, Odibo A, et al. ISUOG Practice Guidelines: role of ultrasound in the prediction of spontaneous preterm birth. Ultrasound Obstet Gynecol. 2022;60(3):435–456. PMID 35904371.
- Fonseca EB, Celik E, Parra M, et al. Progesterone and the risk of preterm birth among women with a short cervix. N Engl J Med. 2007;357(5):462–469. PMID 17671254.
- Hassan SS, Romero R, Vidyadhari D, et al. Vaginal progesterone reduces the rate of preterm birth in women with a sonographic short cervix (PREGNANT). Ultrasound Obstet Gynecol. 2011;38(1):18–31. PMID 21472815.
- Romero R, Conde-Agudelo A, Da Fonseca E, et al. Vaginal progesterone for preventing preterm birth and adverse perinatal outcomes in singleton gestations with a short cervix: individual patient data meta-analysis. Am J Obstet Gynecol. 2018;218(2):161–180. PMID 29157866.
- EPPPIC Group. Evaluating Progestogens for Preventing Preterm birth International Collaborative (EPPPIC): individual participant data meta-analysis. Lancet. 2021;397(10280):1183–1194. PMID 33773630.
- Berghella V, Rafael TJ, Szychowski JM, et al. Cerclage for short cervix on ultrasonography in women with singleton gestations and previous preterm birth: a meta-analysis. Obstet Gynecol. 2011;117(3):663–671. PMID 21446209.
- Goya M, Pratcorona L, Merced C, et al. Cervical pessary in pregnant women with a short cervix (PECEP): a randomised controlled trial. Lancet. 2012;379(9828):1800–1806. PMID 22475493.
- Care A, Nevitt SJ, Medley N, et al. Interventions to prevent spontaneous preterm birth in women with singleton pregnancy who are at high risk: systematic review and network meta-analysis. BMJ. 2022;376:e064547. PMID 35168930.
- Adzick NS, Thom EA, Spong CY, et al. A randomized trial of prenatal versus postnatal repair of myelomeningocele (MOMS). N Engl J Med. 2011;364(11):993–1004. PMID 21306277.
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