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Doppler das artérias oftálmicas na predição da pré-eclâmpsia
Medicina Fetal 8 min de leitura

Doppler das artérias oftálmicas na predição da pré-eclâmpsia

Dr. Rafael Bruns
Dr. Rafael Bruns MÉDICO · CRM-PR 18.582 / CRM-RS 58.559
· 8 min de leitura

Medicina fetal

A aspirina previne a pré-eclâmpsia mais grave — mas não a que aparece perto do termo, que é a maioria dos casos. O Doppler da artéria oftálmica, um exame simples no fim da gravidez, é um marcador em estudo para justamente essa lacuna.

Em resumo: medido por volta de 35–37 semanas, o Doppler da artéria oftálmica ajuda a estimar o risco de pré-eclâmpsia a termo — a forma que a aspirina não previne. É um marcador promissor e ainda em avaliação, não uma rotina consolidada.
A pré-eclâmpsia tem duas “faces”. A forma pré-termo, mais grave e precoce, pode ser bastante reduzida com aspirina em baixa dose iniciada no primeiro trimestre. Mas a maior parte dos casos é a forma a termo — perto ou depois de 37 semanas — e, para essa, a aspirina praticamente não muda o resultado.

É aí que entra uma pergunta diferente: em vez de prevenir, como prever quem vai desenvolver a pré-eclâmpsia a termo, para vigiar mais de perto e decidir melhor o momento do parto? Um dos marcadores mais estudados para isso, hoje, é o Doppler da artéria oftálmica.

Por que o olho ajuda a prever a pré-eclâmpsia

A artéria oftálmica é um ramo direto da artéria carótida interna — o mesmo tronco que irriga o cérebro. Por estar tão próxima da circulação central da mãe e ser fácil de acessar (logo atrás da pálpebra), o fluxo nessa artéria funciona como uma “janela” para o estado dos vasos maternos. Na pré-eclâmpsia, em que há aumento da resistência dos vasos, esse fluxo se altera de forma característica.

O exame é simples, rápido (menos de um minuto), sem agulha e feito com o transdutor apoiado suavemente sobre a pálpebra fechada, ao final do ultrassom de rotina — com cuidados de segurança para o olho (potência reduzida).

Ultrassom com Doppler da artéria oftálmica materna: mapeamento colorido do vaso e onda espectral com dois picos sistólicos
Doppler da artéria oftálmica materna: a onda mostra os dois picos sistólicos que dão origem à medida.

O que se mede: a relação dos picos

A onda do Doppler da artéria oftálmica tem dois picos sistólicos. O que melhor se relaciona com a pré-eclâmpsia é a relação entre eles — o segundo pico dividido pelo primeiro (na literatura, PSV ratio). Quanto maior o segundo pico em relação ao primeiro, maior tende a ser o risco.

É importante entender o que isso não é: não é medir a “pressão do olho” nem um exame de vista. É uma leitura do fluxo sanguíneo materno. Para ter boa qualidade, mede-se pelo menos uma vez em cada olho e usa-se a média.

Diagrama do Doppler da artéria oftálmica mostrando o primeiro e o segundo pico sistólico, cuja relação (PSV ratio) é usada para estimar o risco de pré-eclâmpsia
Como interpretar: a medida é a relação entre o segundo e o primeiro pico sistólico da onda. É essa razão que se associa ao risco de pré-eclâmpsia — não os picos isolados.

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O que a evidência mostra às 35–37 semanas

O maior corpo de evidência vem do grupo da Fetal Medicine Foundation (Londres). No estudo de referência, com 2287 gestantes avaliadas entre 35 e 37 semanas, acrescentar a relação dos picos aos fatores de risco da mãe elevou a taxa de detecção da pré-eclâmpsia de cerca de 25% para 50% — e, para a pré-eclâmpsia iminente (que se manifesta em até 3 semanas), de ~32% para ~58%, mantendo 10% de exames falso-positivos.

Gráfico: somar o Doppler da artéria oftálmica aos fatores maternos eleva a detecção de pré-eclâmpsia às 35–37 semanas de 25% para 50%, e da pré-eclâmpsia iminente de 32% para 58%, a 10% de falso-positivo
Como interpretar: somar o Doppler da artéria oftálmica aos fatores maternos praticamente dobra a detecção da pré-eclâmpsia às 35–37 semanas (a 10% de falso-positivo).

Esses números foram depois validados de forma independente em um grupo maior, de mais de 6700 gestantes, com boa capacidade de discriminação (área sob a curva em torno de 0,80).

Um ponto prático interessante: combinado à pressão arterial e ao Doppler das artérias uterinas, esse “pacote biofísico” chegou a um desempenho semelhante ao de exames de sangue mais caros (como PlGF e sFlt-1) para prever a pré-eclâmpsia iminente — o que o torna atraente onde esses exames não estão disponíveis.

Como se encaixa na prática

A ideia não é “tratar” a partir desse exame, e sim ajustar a vigilância: quem tem risco mais alto de pré-eclâmpsia a termo pode ser acompanhado mais de perto no fim da gravidez, e o dado ajuda a discutir o momento mais seguro para o parto. Essa estratégia de “parto no tempo certo” guiada pelo risco está sendo formalmente testada em estudo clínico.

Na prática do meu consultório, entendo esse exame como parte de uma avaliação de fim de gravidez criteriosa e atualizada, sempre integrado à história, à pressão e aos demais dados — nunca isolado.

O que ainda não é

Vale a franqueza: o Doppler da artéria oftálmica é um marcador emergente, não uma rotina consolidada nem uma recomendação formal de diretriz. Quase toda a evidência de predição vem de um mesmo grupo de pesquisa; falta ampla adoção e validação por outros centros, e a estratégia de conduta a partir dele ainda está em investigação.

Além disso, ele exige técnica padronizada e treinamento, e seu maior valor aparece como complemento aos fatores maternos e às uterinas — ou como alternativa mais barata aos exames bioquímicos — e não como substituto de todo o rastreio. Por isso, aqui ele é apresentado como uma ferramenta promissora, com honestidade sobre seus limites.

Perguntas frequentes

Esse exame substitui a aspirina ou o rastreio de 1º trimestre?
Não. São etapas diferentes: o rastreio de 1º trimestre e a aspirina miram a pré-eclâmpsia pré-termo; o Doppler da artéria oftálmica no fim da gravidez ajuda a prever a forma a termo. Eles se complementam.
O exame dói? Como é feito?
Não dói e não usa agulha. O transdutor é apoiado suavemente sobre a pálpebra fechada por poucos segundos, ao final do ultrassom, com a potência do aparelho reduzida por segurança.
Já é um exame de rotina?
Ainda não. É um marcador promissor, em avaliação, sem recomendação formal de diretriz. Deve ser usado com critério, dentro de uma avaliação completa, e não como exame isolado.
Em que semana ele é feito?
A evidência para prever a pré-eclâmpsia a termo concentra-se por volta de 35 a 37 semanas, junto ao ultrassom do terceiro trimestre.
Para que serve o resultado, na prática?
Para ajustar a vigilância no fim da gravidez e apoiar a decisão sobre o momento mais seguro do parto em quem tem risco mais alto. A conduta é sempre individual e definida com o seu médico.

Referências

  • Sarno M, Wright A, Vieira N, et al. Ophthalmic artery Doppler in prediction of pre-eclampsia at 35–37 weeks’ gestation. Ultrasound Obstet Gynecol. 2020;56(5):717–724.
  • Mansukhani T, Wright A, Arechvo A, et al. Ophthalmic artery Doppler at 36 weeks’ gestation in prediction of pre-eclampsia: validation and update of previous model. Ultrasound Obstet Gynecol. 2024;63(2):230–236.
  • Nicolaides KH, Sarno M, Wright A. Ophthalmic artery Doppler in the prediction of preeclampsia. Am J Obstet Gynecol. 2022;226(2S):S1098–S1101.
  • Gana N, Pittokopitou S, Solonos F, et al. Ophthalmic artery Doppler indices at 11–13 weeks of gestation in relation to early and late preeclampsia. J Clin Med. 2025;14:4811.
  • de Melo PFMV, et al. Ophthalmic artery Doppler in the complementary diagnosis of preeclampsia: systematic review and meta-analysis. BMC Pregnancy Childbirth. 2023;23:343.

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Gin. e Obstetrícia
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Médico especialista em Ginecologia, Obstetrícia e Medicina Fetal. Atua com cirurgia fetal desde 2016 em Curitiba e Porto Alegre. Doutor pela UNIFESP.

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