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Oclusão traqueal fetal (FETO): como o balão na traqueia ajuda os pulmões a crescer
Cirurgia Fetal 13 min de leitura

Oclusão traqueal fetal (FETO): como o balão na traqueia ajuda os pulmões a crescer

Dr. Rafael Bruns
Dr. Rafael Bruns MÉDICO · CRM-PR 18.582 / CRM-RS 58.559
· 13 min de leitura

Cirurgia fetal

Na hérnia diafragmática congênita grave, a oclusão traqueal fetal (FETO) estimula os pulmões a crescer antes do nascimento — e pode mudar o prognóstico.

Destaque: o balão é colocado entre 25 e 28 semanas e retirado antes do parto, em torno de 34 semanas. O bebê nasce sem o dispositivo.

O que é a hérnia diafragmática congênita e por que os pulmões ficam comprometidos

O diafragma é o músculo que separa o tórax do abdômen. Na hérnia diafragmática congênita (HDC), esse músculo se forma com uma abertura — um defeito que permite que vísceras abdominais como estômago, intestino e, nos casos mais graves, o fígado migrem para dentro do tórax.

O problema não é apenas o espaço físico ocupado. É o que essa ocupação faz com os pulmões em desenvolvimento: eles crescem comprimidos, com menos espaço e menos estímulo mecânico, resultando em hipoplasia pulmonar — pulmões subdesenvolvidos — e, frequentemente, hipertensão pulmonar após o nascimento.

Dados epidemiológicos:

  • A HDC afeta aproximadamente 1 em cada 4.000 nascimentos
  • Cerca de 85% dos casos ocorrem no lado esquerdo do diafragma; 13% no lado direito
  • Em metade dos casos, há anomalias estruturais ou cromossômicas associadas
  • Nos casos isolados de HDC, a sobrevida neonatal varia entre 60% e 70%

O diagnóstico é feito por ultrassom, geralmente entre 18 e 20 semanas de gestação, quando o exame morfológico identifica achados característicos: o coração desviado do seu eixo normal, vísceras abdominais visíveis no tórax, e pulmões menores do que o esperado para a idade gestacional.

Como saber se o caso é grave o suficiente para intervir

Nem toda hérnia diafragmática congênita tem indicação de intervenção fetal. O FETO é reservado para casos com alto risco de mortalidade — e para definir esse risco, o especialista em medicina fetal usa marcadores ultrassonográficos que estimam o grau de comprometimento pulmonar.

LHR, o/e LHR e volumetria por RM: muitas medidas para uma questão difícil

O marcador mais conhecido é o LHR (lung-to-head ratio): a relação entre o tamanho do pulmão fetal e o perímetro cefálico, ambos medidos pelo ultrassom. Existe também o o/e LHR (observed/expected LHR), que corrige o valor simples pela idade gestacional — porque o tamanho do pulmão normal varia semana a semana, e comparar o valor bruto sem essa correção pode induzir erros. E há ainda a volumetria pulmonar por ressonância magnética, que oferece uma estimativa tridimensional do volume de tecido pulmonar.

Por que existem tantas formas de medir? Porque nenhuma delas é perfeita. Cada marcador tem limitações próprias: o LHR simples não corrige pela idade gestacional e depende muito da técnica do examinador; o o/e LHR é mais robusto, mas exige curvas de referência e experiência; a volumetria por RM é mais precisa em termos absolutos, mas com acesso restrito e sem consenso claro sobre os pontos de corte ideais.

Na prática: a indicação do FETO integra múltiplos marcadores com outros fatores clínicos — a posição do fígado (herniação hepática é fator de pior prognóstico), a lateralidade da hérnia e o histórico de anomalias associadas. Em casos de HDC esquerda grave com o/e LHR abaixo de 25% e fígado herniado, a sobrevida sem intervenção é muito baixa — é nesse cenário que o FETO passa a ser discutido com a família.


Como funciona a oclusão traqueal fetal

O procedimento é realizado entre 25 e 28 semanas de gestação. Essa janela é importante porque permite ao menos seis semanas de oclusão antes da retirada programada do balão — tempo considerado necessário para promover crescimento pulmonar clinicamente significativo.

A técnica é minimamente invasiva. Sob anestesia, um fetoscópio — um instrumento com diâmetro comparável a um lápis fino — é introduzido através de uma punção no abdômen materno até alcançar a cavidade uterina. Com o fetoscópio posicionado, um microcateter com um balão em sua ponta é guiado pela boca do feto, desce pela faringe e é posicionado dentro da traqueia. O balão é então inflado.

Balão Goldbal 2 em cinco etapas: do dispositivo vazio montado na agulha até inflado no microcateter, com dedos ao lado mostrando a escala real do balão utilizado na oclusão traqueal fetal
Figura 1. O balão Goldbal 2 (Balt), utilizado na oclusão traqueal fetal, em cinco etapas: (A) balão vazio montado na ponta de uma agulha, ao lado do microcateter de colocação; (B) balão sendo inflado com solução salina; (C) balão completamente inflado; (D) balão parcialmente inflado e já acoplado ao microcateter; (E) balão completamente inflado e acoplado ao microcateter — note a escala real em comparação com os dedos ao fundo. Figura adaptada de Pereira VM et al., Radiology Key. Uso educativo.

Olhando para a imagem, é difícil acreditar que esse pequeno objeto é o centro de todo o procedimento. O balão utilizado na oclusão traqueal fetal chama-se Goldbal 2 — um dispositivo de látex desenvolvido originalmente para procedimentos em vasos cerebrais e adaptado para a cirurgia fetal. Vazio, ele é menor do que a borracha de um lápis. Inflado, cabe com folga dentro da traqueia de um feto com menos de 30 semanas de gestação — o que dá a real dimensão do quão diminuto é o campo onde o procedimento acontece. Toda a cirurgia ocorre nessa escala: sem cortes grandes, sem abertura do útero, guiada por um fetoscópio fino introduzido pelo abdômen da mãe. O que a imagem (E) deixa claro com nitidez — o balão inflado ao lado dos dedos do cirurgião — é que precisão, aqui, se mede em milímetros.

O que acontece dentro da traqueia

Normalmente, os pulmões fetais produzem e secretam líquido pulmonar que flui para fora pelas vias aéreas. Com a traqueia ocluída pelo balão, esse líquido fica retido. O acúmulo progressivo gera uma pressão interna que força a expansão dos pulmões — mecanicamente, é um estímulo de distensão sustentada que o tecido pulmonar interpreta como sinal de crescimento.

O que o FETO faz

  • Estimula ramificação das vias aéreas
  • Aumenta o volume e o peso do tecido pulmonar
  • Reduz a resistência nos vasos sanguíneos pulmonares
  • Melhora a chance de sobrevida neonatal

O que o FETO não faz

  • Não corrige a hérnia diafragmática
  • Não reposiciona as vísceras abdominais
  • Não elimina a necessidade de cirurgia pós-natal
  • Não garante resultado — depende de múltiplos fatores

A retirada do balão — e por que isso surpreende as famílias

Uma informação que costuma causar surpresa genuína: o balão não fica no feto até o parto. Ele é retirado antes do nascimento.

A remoção é realizada em torno de 34 semanas de gestação. O motivo é clínico e prático: se o balão permanecesse presente no momento do parto, as vias aéreas do recém-nascido precisariam ser desobstruídas de forma imediata e controlada — o que representaria um risco adicional na sala de parto. A retirada programada permite que os pulmões, agora estimulados, tenham um período de adaptação antes do nascimento e que o parto transcorra sem essa variável.

A remoção é feita pelo mesmo acesso fetoscópico: o balão é puncionado e esvaziado, e o feto retoma normalmente a troca de líquido pulmonar até o parto.

Dúvida frequente: “meu filho vai nascer com um balão na garganta?” — Não. O balão é um dispositivo temporário com início, meio e fim planejados dentro da gestação.

Riscos do procedimento

Como qualquer intervenção fetal que envolve acesso ao útero, o FETO não é isento de riscos. O principal é a ruptura prematura das membranas — que pode levar ao parto prematuro antes que o balão seja retirado de forma programada, encurtando o período de oclusão ou exigindo sua remoção de emergência. Outros riscos incluem descolamento de placenta e infecção intra-uterina.

A decisão de realizar o FETO envolve sempre ponderar esses riscos contra o prognóstico sem intervenção — uma conversa que acontece caso a caso, em avaliação completa, com tempo e informação, em um centro com experiência no procedimento.

Quando buscar avaliação especializada em hérnia diafragmática congênita:

  • O diagnóstico foi feito antes de 24 semanas (janela para discussão de intervenção)
  • O laudo menciona herniação do fígado para o tórax
  • O LHR ou o/e LHR foram calculados e estão abaixo dos valores de referência
  • O coração aparece desviado do seu eixo normal no ultrassom
  • Há dúvida sobre a gravidade do caso ou sobre as opções disponíveis no Brasil
  • Você recebeu laudos divergentes de diferentes serviços

Hérnia diafragmática congênita

Quer entender as opções para o seu caso?

Segunda opinião por telemedicina — Resolução CFM 2.314/2022.

Teleconsulta — segunda opinião

Sobrevida e o que esperar após o FETO

Ultrassonografia antes e depois da oclusão traqueal fetal em caso de hérnia diafragmática congênita: à esquerda vísceras abdominais no tórax com 22 semanas, à direita pulmões expandidos após o procedimento FETO
Ultrassonografia antes e depois da oclusão traqueal fetal (FETO) em caso de hérnia diafragmática congênita. Esquerda: aspecto pré-operatório com 22 semanas — vísceras abdominais ocupando o tórax e comprimindo os pulmões. Direita: aspecto pós-operatório — pulmões expandidos com apenas coração visível no tórax. Linha superior: órgãos identificados por cores. Linha inferior: imagem original do ultrassom. Acervo pessoal do Dr. Rafael Bruns.

Os dados da literatura mostram sobrevida neonatal de aproximadamente 60% a 65% nos casos de HDC grave tratados com FETO — uma melhora em relação ao prognóstico sem intervenção nos casos mais críticos. O estudo TOTAL (Tracheal Occlusion to Accelerate Lung growth), conduzido pelos grupos de Deprest e Nicolaides, é a referência central dessa evidência e representa o maior ensaio clínico randomizado disponível sobre o tema.

Importante: esses números refletem populações estudadas — não garantem resultado em nenhum caso individual. O desfecho depende de múltiplos fatores além do FETO em si: a qualidade da equipe neonatal no parto, o momento e a técnica de correção cirúrgica da hérnia após o nascimento, e a presença ou ausência de anomalias associadas.

O FETO é uma peça de um cuidado multidisciplinar que envolve médico fetal, cirurgião pediátrico, neonatologista e, frequentemente, cardiologista pediátrico. O procedimento é o início de uma jornada — não o fim dela.

O primeiro balão no Paraná — e uma história sobre redes

Em 2016, realizamos a primeira oclusão traqueal fetoscópica do Paraná. O caso era de hérnia diafragmática congênita grave com indicação de FETO. A técnica era factível; o problema foi encontrar o balão.

Naquele momento, os dispositivos específicos para oclusão traqueal fetal não estavam disponíveis no Brasil. O estoque havia se esgotado. O importador, para tentar resolver, rastreou todos os serviços que tinham adquirido o produto anteriormente — e encontrou uma única unidade, no estoque da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.

O hospital cedeu o balão. Ele foi transportado para Curitiba, e o procedimento foi realizado.

Hoje opero também na Santa Casa de Porto Alegre. Não sei se essa história é a razão — mas ela certamente faz parte.

Por que isso importa para as famílias: a medicina fetal de alta complexidade no Brasil tem essa dimensão — é uma rede construída por casos difíceis, decisões rápidas e colaboração entre centros. Encontrar um especialista que já percorreu esse caminho não é um detalhe menor.

Perguntas frequentes

O que é a oclusão traqueal fetal (FETO)?

É um procedimento minimamente invasivo realizado durante a gestação para estimular o crescimento dos pulmões em fetos com hérnia diafragmática congênita grave. Um fetoscópio é introduzido pelo abdômen materno, e um balão é posicionado e inflado dentro da traqueia do feto para reter o líquido pulmonar — gerando uma pressão que força os pulmões a crescerem.
Quem tem indicação de FETO?

Fetos com hérnia diafragmática congênita isolada (sem anomalias cromossômicas ou estruturais graves associadas) e marcadores de gravidade que indicam alto risco de mortalidade neonatal — especialmente o/e LHR abaixo de 25% e herniação do fígado para o tórax. A indicação é definida em avaliação especializada, considerando múltiplos fatores.
O balão fica no bebê até o nascimento?

Não. O balão é retirado em torno de 34 semanas de gestação, antes do parto, pelo mesmo acesso fetoscópico. O bebê nasce sem o dispositivo.
Qual é a taxa de sobrevida após o FETO?

A literatura relata sobrevida neonatal de aproximadamente 60% a 65% nos casos de HDC grave tratados com FETO. Esses dados são de estudos controlados — não representam garantia de resultado individual. O desfecho depende da gravidade do caso, da equipe neonatal e do manejo pós-natal.
Quais são os principais riscos do FETO?

O principal risco é a ruptura prematura das membranas, que pode levar ao parto prematuro. Outros riscos incluem descolamento de placenta e infecção intra-uterina. A decisão leva em conta esses riscos comparados ao prognóstico sem intervenção.
O FETO corrige a hérnia diafragmática?

Não. O procedimento melhora a condição dos pulmões antes do nascimento, mas o defeito no diafragma permanece e é corrigido cirurgicamente após o parto — em uma cirurgia separada, já fora do útero.
Onde o FETO é realizado no Brasil?

O procedimento exige um centro de medicina fetal com experiência em fetoscopia e equipe neonatal de referência. O Dr. Rafael Bruns realiza avaliações e procedimentos em Curitiba e Porto Alegre, com atendimento por telemedicina para famílias de outras regiões.

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Hérnia diafragmática congênita: entenda as opções para o seu caso

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Referências

  1. Deprest JA et al. Randomized trial of fetal surgery for severe left diaphragmatic hernia. N Engl J Med. 2021;385(2):107-118. (TOTAL trial)
  2. Deprest JA et al. Randomized trial of fetal surgery for moderate left diaphragmatic hernia. N Engl J Med. 2021;385(2):119-129. (TOTAL trial)
  3. Jani J, Nicolaides KH et al. Prenatal prediction of survival in isolated left-sided diaphragmatic hernia. Ultrasound Obstet Gynecol. 2006;27(1):18-22.
  4. ISUOG Practice Guidelines: diagnosis and surveillance of congenital diaphragmatic hernia. Ultrasound Obstet Gynecol. Consultar versão vigente.

Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica presencial ou por telemedicina com avaliação individualizada.

Dr. Rafael Bruns — Medicina Fetal

Dr. Rafael Bruns
Gin. e Obstetrícia
Medicina Fetal

Médico especialista em Ginecologia, Obstetrícia e Medicina Fetal. Atua com cirurgia fetal desde 2016 em Curitiba e Porto Alegre.

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