Curitiba — Doc Batel
Porto Alegre — Inst. Celso Rigo
CRM-PR 18.582 · RQE 12.169 / 238
CRM-RS 58.559 · RQE 45.076 / 45.079
Dr. Rafael Bruns
Onde atendo
Curitiba

Consultório Doc Batel

Av. Visc. de Guarapuava, 4628 — Batel

Hospital Nossa Sra. das Graças

Porto Alegre

Instituto Materno Fetal Celso Rigo

Av. Independência, 75

Hospital Nora Teixeira

Agendar consulta

CIRURGIA FETAL

Mielomeningocele: diagnóstico pré-natal, tratamento e cirurgia fetal

A mielomeningocele é uma malformação congênita da coluna vertebral causada pelo fechamento incompleto do tubo neural. O diagnóstico pré-natal permite planejar o tratamento — que pode incluir cirurgia fetal em casos selecionados — e organizar o cuidado multidisciplinar desde antes do nascimento.

Em resumo

  • A mielomeningocele é identificável no ultrassom morfológico do segundo trimestre, entre 20 e 24 semanas
  • A cirurgia fetal existe, mas tem critérios rigorosos — não é indicada para todos os casos
  • O diagnóstico pré-natal, mesmo quando não há indicação cirúrgica, muda o planejamento do parto e do cuidado neonatal
  • O estudo MOMS (Adzick et al., NEJM 2011) demonstrou benefícios da correção pré-natal em casos selecionados
Dr. Rafael Bruns durante cirurgia fetal de mielomeningocele em centro cirúrgico de Porto Alegre
Dr. Rafael Bruns realizando cirurgia fetal de mielomeningocele em Porto Alegre, RS.

O que é mielomeningocele

A mielomeningocele é uma malformação congênita que ocorre quando o fechamento do tubo neural — a estrutura embrionária que origina o cérebro e a medula espinhal — não se completa nas primeiras semanas de gestação. O resultado é um defeito na coluna vertebral por onde partes das meninges e do tecido nervoso ficam expostos.

É considerada a forma mais grave de espinha bífida. A localização e o tamanho do defeito determinam em grande parte a gravidade clínica — dois bebês com o mesmo diagnóstico podem ter desfechos muito distintos.

Uma história pessoal com a mielomeningocele

Recebi uma família para segunda opinião sobre um caso de mielomeningocele. Antes de eu dizer uma palavra, a mãe foi direta: "Eu sei que ninguém do Paraná já operou uma mielomeningocele. Não vou operar com vocês." Respondi com calma que não era minha intenção realizar a cirurgia — mas que ela estava enganada sobre a história. Mostrei referências, imagens, a trajetória real do procedimento no país.

No dia seguinte, recebi uma mensagem: eles gostariam de operar conosco. Aquela foi a primeira cirurgia fetal aberta de mielomeningocele realizada na região Sul do Brasil. Mas o que ficou de mais marcante não foi esse fato histórico — foi o convite para o primeiro aniversário da criança. Virei amigo da família.

Conto essa história porque ela resume o que importa numa avaliação de mielomeningocele: clareza, honestidade e tempo para conversar de verdade.

Leia a história completa da cirurgia fetal para mielomeningocele

Linha do tempo — marcos na história da cirurgia fetal para mielomeningocele

1980s

Dr. Michael Harrison (UCSF) propõe que certas condições fetais poderiam ser tratadas no útero. A ideia é recebida com ceticismo, mas os primeiros modelos animais começam a provar que é viável. Ler mais ↓

1994

Meuli e Adzick criam modelo em ovelhas que imita a mielomeningocele humana — fetos operados no útero nascem com função neurológica muito melhor. A lógica da cirurgia fetal ganha base científica sólida. Ler mais ↓

1997

Drs. Bruner e Tulipan (Vanderbilt) realizam a primeira correção fetal aberta bem-sucedida em humanos. Simultaneamente, Adzick e Flake (CHOP) operam nas primeiras idades gestacionais precoces. Ler mais ↓

1998

Tulipan et al. publicam que nos primeiros bebês operados intraútero não havia herniação cerebelar — sugerindo que a cirurgia fetal pode prevenir ou reverter a malformação de Chiari II. Ler mais ↓

2003

Prof. Dr. Antônio Moron (UNIFESP) realiza os primeiros casos brasileiros — Dr. Rafael Bruns testemunha as cirurgias. O Brasil se torna pioneiro na América Latina. Ler mais ↓

2003–2010

NIH inicia o estudo MOMS — ensaio clínico randomizado com 183 fetos em 3 centros (Vanderbilt, CHOP e UCSF), comparando cirurgia pré-natal com pós-natal. Ler mais ↓

2011

O estudo MOMS é publicado no NEJM — a cirurgia fetal reduz a necessidade de derivação ventricular e melhora desfechos motores. Deixa de ser experimental e passa a ser padrão de cuidado em centros habilitados. Ler mais ↓

2017

Dr. Rafael Bruns e equipe — com Dr. André Bradley e Dr. Daniel Bruns, neurocirurgia chefiada pelo Dr. Adriano Maeda e anestesiologia pela Dra. Dinamene Nogueira — realizam a primeira cirurgia fetal aberta de mielomeningocele em Curitiba e da região Sul do Brasil. Ler mais ↓

2025

Dr. Rafael Bruns realiza a primeira cirurgia fetal de mielomeningocele em Porto Alegre, consolidando o atendimento no Sul do país.

Diagrama comparativo mostrando coluna vertebral normal à esquerda e defeito de mielomeningocele à direita, com meninges e tecido nervoso expostos através da abertura na coluna
Esquema ilustrativo do defeito de fechamento do tubo neural na mielomeningocele (fins educativos). Clique para ampliar.

Como o defeito no tubo neural acontece

O tubo neural se forma e fecha entre a terceira e a quarta semana de gestação — frequentemente antes de a mulher saber que está grávida. Quando esse fechamento não ocorre na região da coluna, as estruturas que deveriam estar protegidas ficam expostas ao líquido amniótico por toda a gravidez.

Essa exposição prolongada contribui para danos progressivos ao tecido nervoso — o que é um dos fundamentos clínicos centrais para discutir a intervenção antes do nascimento em casos selecionados.

As causas envolvem uma combinação de fatores genéticos, ambientais e nutricionais. O papel do ácido fólico na prevenção é bem estabelecido e será abordado mais adiante.

Uma das primeiras perguntas que as mães fazem após o diagnóstico é "por que isso aconteceu?" — e é importante dizer com clareza: na grande maioria dos casos, não há uma causa identificável. Não é algo que a mãe fez ou deixou de fazer. O fechamento do tubo neural depende de uma sequência complexa de eventos que ocorre muito cedo na gestação, e falhas nesse processo podem acontecer mesmo em gestações planejadas, com suplementação adequada e sem nenhum fator de risco aparente. Sentir culpa é compreensível, mas não é justificado.


Como o ultrassom no pré-natal identifica a mielomeningocele

O diagnóstico costuma ser possível no ultrassom morfológico do segundo trimestre, geralmente entre 20 e 24 semanas.

O exame avalia diretamente a coluna do bebê e também sinais indiretos no sistema nervoso central. Dois achados intracranianos clássicos acompanham a mielomeningocele:

  • Sinal do limão — alteração no contorno do crânio
  • Sinal da banana — deslocamento do cerebelo, visível como uma curvatura característica na fossa posterior

Esses sinais, quando presentes, aumentam significativamente a suspeita — mesmo antes de visualizar diretamente o defeito na coluna. Em alguns casos, há também ventriculomegalia, indicando início de hidrocefalia.

Em situações selecionadas, a ressonância magnética fetal complementa o ultrassom para melhor caracterização das estruturas neurais.


O que o especialista em medicina fetal avalia além do diagnóstico

O diagnóstico de mielomeningocele num ultrassom de rotina é o ponto de partida — não o ponto de chegada.

A avaliação com especialista em medicina fetal determina o nível da lesão na coluna, a extensão do comprometimento, a presença de outras malformações associadas e o grau de ventriculomegalia. Quando pertinente, discute se o caso preenche critérios para cirurgia fetal.

Pode ser necessário complementar com exames genéticos quando há suspeita de síndromes associadas.

Essa avaliação detalhada não muda o diagnóstico — mas muda completamente o que a família sabe e o que pode planejar.

Próximo passo

Recebeu diagnóstico de mielomeningocele?

Recebeu diagnóstico de mielomeningocele e quer entender as opções com calma? Atendo em Curitiba, Porto Alegre e por telemedicina.


Quais são as possíveis sequelas da mielomeningocele

A mielomeningocele não tem cura no sentido de reverter completamente o dano neurológico já estabelecido. O objetivo do tratamento é proteger o tecido exposto, limitar a progressão do dano e oferecer o melhor contexto possível para o desenvolvimento da criança.

As sequelas dependem do nível da lesão e podem incluir:

  • Fraqueza muscular ou paralisia parcial dos membros inferiores
  • Alterações ortopédicas na coluna e nos membros
  • Disfunção vesical — incluindo incontinência urinária — e intestinal
  • Hidrocefalia, que pode exigir derivação do líquido cefalorraquidiano
  • Dificuldades no desenvolvimento motor e, em alguns casos, cognitivo

Muitos pacientes têm qualidade de vida plena. O acompanhamento precoce e consistente — por equipe especializada — faz diferença real nos desfechos ao longo da vida.

Quando procurar avaliação especializada

  • O ultrassom morfológico identificou suspeita ou diagnóstico de mielomeningocele
  • O laudo mencionou "sinal do limão", "sinal da banana", ventriculomegalia ou defeito de coluna
  • Você recebeu laudos contraditórios em diferentes serviços
  • A família foi orientada a considerar cirurgia fetal e quer entender melhor as opções reais
  • Há histórico de defeito do tubo neural em filho anterior
  • Você está planejando uma gravidez e tem dúvidas sobre suplementação de ácido fólico

Existe tratamento para a mielomeningocele?

Sim — e o planejamento começa antes do nascimento, independentemente de haver indicação de cirurgia fetal.

O fechamento do defeito pode ser realizado de duas formas:

  • Antes do nascimento, em casos selecionados — a chamada cirurgia fetal
  • Logo após o nascimento — quando a cirurgia fetal não é indicada ou não é possível

Em ambos os casos, o fechamento é apenas o início de um acompanhamento de longo prazo com múltiplas especialidades.


A história da cirurgia fetal para mielomeningocele

Esta cirurgia não surgiu de um dia para o outro. Ela é o resultado de décadas de pesquisa, frustrações, coragem e colaboração entre equipes em diferentes países — incluindo o Brasil. Eu tive o privilégio de fazer parte dessa história.

A ideia que parecia impossível

Nos anos 1980, o Dr. Michael Harrison, da Universidade da Califórnia em San Francisco (UCSF), propõe que certas condições fetais poderiam ser tratadas ainda dentro do útero. A ideia é recebida com ceticismo. Mas os primeiros modelos animais começam a provar que é viável.

A prova no modelo ovino

Em 1994, os pesquisadores Meuli e Adzick criam um modelo em ovelhas que imita a mielomeningocele humana. Os resultados são reveladores: fetos operados no útero nascem com função neurológica muito melhor do que os não operados. A lógica da cirurgia fetal para mielomeningocele ganha base científica sólida.

A primeira cirurgia em humanos

Em 1997, os Drs. Joseph Bruner e Noel Tulipan, na Universidade Vanderbilt (Nashville, EUA), realizam a primeira correção fetal aberta bem-sucedida de mielomeningocele em humanos. Quase simultaneamente, os Drs. Adzick e Flake, no Children's Hospital of Philadelphia (CHOP), realizam as primeiras correções em idades gestacionais precoces — entre 19 e 25 semanas.

A reversão da herniação cerebelar

Em 1998, Tulipan, Hernanz-Schulman e Bruner publicam um achado que muda a compreensão da doença: nos 4 primeiros bebês operados intrauterinamente, as imagens pós-natais mostram ausência de herniação cerebelar — algo incomum em praticamente 100% dos casos tratados apenas após o nascimento. O artigo (Pediatric Neurosurgery, 1998;29:274–278) sugere que fechar o defeito antes do nascimento pode prevenir ou reverter a malformação de Chiari II, reduzindo a necessidade de derivação ventricular.

O Brasil entra no mapa — e eu entrei na sala

Em 2003, o Prof. Dr. Antônio Moron, da UNIFESP, e sua equipe em São Paulo realizam os primeiros casos brasileiros de cirurgia fetal a céu aberto para mielomeningocele — tornando o Brasil pioneiro na América Latina. Nesse período, ao terminar minha residência médica, tive a oportunidade de ir a São Paulo aprender medicina fetal com o Prof. Moron. E fui testemunha das primeiras cirurgias que ele realizou. Foi ali que vi, pela primeira vez, o que essa operação pode mudar na vida de uma criança.

O estudo que mudou o padrão de cuidado

Entre 2003 e 2010, o NIH (Instituto Nacional de Saúde dos EUA) conduz o MOMS — Management of Myelomeningocele Study — um ensaio clínico randomizado multicêntrico com 183 fetos, comparando cirurgia pré-natal com cirurgia pós-natal. Os três centros participantes (Vanderbilt, CHOP e UCSF) suspendem outros casos durante o período para garantir a integridade do estudo.

O MOMS é publicado no NEJM

Em 2011, Adzick et al. publicam os resultados no New England Journal of Medicine (2011;364:993–1004). A cirurgia fetal reduz significativamente a necessidade de derivação ventricular e melhora desfechos motores em casos selecionados. A partir desse momento, a correção pré-natal da mielomeningocele deixa de ser experimental e passa a ser considerada padrão de cuidado em centros habilitados.

A primeira cirurgia na região Sul

Em 2017, uma família chega para uma segunda opinião. Conversamos. Decidiram operar. Junto com o Dr. André Bradley e meu irmão Dr. Daniel Bruns, com a equipe de neurocirurgia chefiada pelo Dr. Adriano Maeda e a anestesiologia pela Dra. Dinamene Nogueira, realizamos a primeira cirurgia fetal aberta para mielomeningocele de Curitiba — e da região Sul do Brasil.

Porto Alegre

Em 2025, realizo a primeira cirurgia fetal de mielomeningocele em Porto Alegre com equipe local, consolidando o atendimento no Sul do país.

A avaliação com especialista em medicina fetal não muda o diagnóstico — mas muda completamente o que a família sabe e o que pode planejar.


Quando a cirurgia fetal pode ser considerada

A cirurgia fetal para mielomeningocele busca corrigir o defeito durante a gestação, antes que a exposição ao líquido amniótico cause danos adicionais ao tecido nervoso.

Com base nos resultados do estudo MOMS — e nos dados anteriores de Tulipan, Bruner e Adzick — a correção pré-natal, em casos selecionados, pode reduzir a necessidade de derivação ventricular e melhorar alguns desfechos motores em comparação à cirurgia realizada apenas após o nascimento.

A cirurgia não é indicada para todos os casos. Os critérios de elegibilidade são rigorosos e incluem:

  • Diagnóstico entre 19 e 25 semanas e 6 dias
  • Nível de lesão em região torácica baixa, lombar ou sacral
  • Ausência de outras malformações fetais maiores
  • Condições maternas compatíveis com o procedimento
  • Avaliação em centro experiente com equipe dedicada

A cirurgia também envolve riscos maternos e obstétricos relevantes — incluindo maior chance de parto prematuro. A decisão exige avaliação individualizada cuidadosa, nunca uma resposta genérica.

Há duas abordagens possíveis: a cirurgia aberta (open fetal surgery) e a técnica fetoscópica, minimamente invasiva. Cada uma tem indicações e limitações específicas — tema aprofundado neste artigo sobre cirurgia aberta versus fetoscopia.

Estudo MOMS
Critérios de elegibilidade para cirurgia fetal
Todos os critérios devem ser preenchidos — avaliação individualizada obrigatória
1
Idade gestacional adequada
Diagnóstico entre 19 semanas e 25 semanas e 6 dias de gestação
2
Nível da lesão na coluna
Lesão em região torácica baixa, lombar ou sacral — os níveis com melhor resposta à correção intrauterina
3
Ausência de outras malformações maiores
O bebê não deve apresentar anomalias genéticas ou malformações graves associadas
4
Condições maternas compatíveis
Saúde materna que permita a cirurgia com segurança — incluindo avaliação de riscos obstétricos
5
Centro experiente com equipe dedicada
O procedimento deve ser realizado em centro de referência com equipe multidisciplinar treinada em cirurgia fetal
Baseado nos critérios do estudo MOMS — Adzick NS et al. N Engl J Med. 2011;364(11):993-1004. A decisão é sempre individualizada.
Critérios gerais de elegibilidade para cirurgia fetal na mielomeningocele (baseados no estudo MOMS).

Avaliação especializada

Quer saber se a cirurgia fetal é uma opção?

Se você recebeu diagnóstico de mielomeningocele e quer entender se a cirurgia fetal é uma opção, converse com a equipe para avaliação individualizada.


Quando a correção é feita após o nascimento

Quando a cirurgia fetal não é indicada — por critérios clínicos ou por escolha da família — o fechamento do defeito é realizado pelo neurocirurgião nas primeiras 24 a 72 horas de vida.

O parto deve ser planejado com antecedência: definir local, equipe e momento adequado faz parte do acompanhamento pré-natal especializado. Esse planejamento não é um detalhe — é parte integral do tratamento.


Acompanhamento após o nascimento

O tratamento da mielomeningocele não termina no fechamento do defeito. A criança geralmente precisará de acompanhamento com equipe multidisciplinar por muitos anos — envolvendo neurocirurgia, urologia, ortopedia, fisioterapia, terapia ocupacional e suporte psicológico para a família.

Quanto mais organizado esse acompanhamento desde o início, melhores tendem a ser os desfechos funcionais e de qualidade de vida a longo prazo. A avaliação pré-natal especializada permite preparar esse caminho — independentemente de haver ou não indicação de cirurgia fetal.


Como o ácido fólico ajuda a prevenir defeitos do tubo neural

A principal estratégia para reduzir o risco de mielomeningocele e outros defeitos do tubo neural é a suplementação com ácido fólico antes da concepção e no início da gravidez.

A recomendação é de 400 mcg por dia, iniciando pelo menos um mês antes de tentar engravidar e mantendo ao longo do primeiro trimestre. Em mulheres com histórico de filho com defeito do tubo neural, doses maiores podem ser indicadas — sempre com orientação médica.

O ácido fólico reduz substancialmente o risco, mas não o elimina. O diagnóstico pré-natal continua sendo essencial mesmo em gestações com suplementação adequada.

Quando buscar uma segunda opinião

  • O diagnóstico gerou dúvida ou os laudos são contraditórios
  • A família foi orientada a considerar cirurgia fetal e quer entender melhor as opções reais
  • Você mora em outra cidade e quer revisar os achados antes de viajar
  • Quer mais tempo e mais clareza para tomar uma decisão difícil

Converse com calma

Recebeu diagnóstico de mielomeningocele?

Se você recebeu um diagnóstico de mielomeningocele, o próximo passo é conversar com calma — sem pressa.


Perguntas frequentes

O que é mielomeningocele?

É uma malformação congênita causada pelo fechamento incompleto do tubo neural, que resulta em um defeito na coluna vertebral com exposição de meninges e tecido nervoso. É considerada a forma mais grave de espinha bífida.

Mielomeningocele e espinha bífida são a mesma coisa?

A mielomeningocele é um tipo de espinha bífida — especificamente a forma mais grave, em que há exposição de tecido nervoso através do defeito na coluna. Existem outras formas de espinha bífida com menor comprometimento neurológico.

Em que semana o ultrassom pode identificar a mielomeningocele?

O diagnóstico costuma ser possível no ultrassom morfológico do segundo trimestre, geralmente entre 20 e 24 semanas. Em alguns casos, sinais indiretos como o sinal do limão e o sinal da banana podem ser visíveis antes disso com equipamento adequado.

Todo bebê com mielomeningocele pode fazer cirurgia fetal?

Não. A cirurgia fetal tem critérios de elegibilidade rigorosos — relacionados à semana gestacional, ao nível da lesão, à ausência de outras malformações e às condições maternas. A avaliação precisa ser feita caso a caso por equipe especializada.

A cirurgia fetal cura a mielomeningocele?

Não no sentido de reverter completamente a lesão. O estudo MOMS demonstrou que a correção pré-natal pode reduzir a necessidade de derivação ventricular e melhorar alguns desfechos motores em casos selecionados — mas não elimina as sequelas nem garante desenvolvimento neurológico normal.

O bebê vai precisar de cirurgia depois de nascer mesmo assim?

Quando a cirurgia fetal é realizada, o defeito já está fechado — mas pode haver necessidade de outros procedimentos, como derivação ventricular para manejo da hidrocefalia. Quando não há cirurgia fetal, o fechamento do defeito é feito pelo neurocirurgião nas primeiras horas de vida.

Quais sequelas podem aparecer?

Dependem do nível e da extensão da lesão. Podem incluir fraqueza ou paralisia de membros inferiores, disfunção vesical e intestinal, hidrocefalia e alterações ortopédicas. Muitos pacientes têm vida plena com acompanhamento adequado.

O ácido fólico realmente ajuda a prevenir?

Sim. A suplementação periconcepcional reduz substancialmente o risco de defeitos do tubo neural. A recomendação é iniciar antes de engravidar e manter ao longo do primeiro trimestre. Isso não elimina o risco completamente, mas é a medida preventiva mais eficaz disponível.

Quando vale a pena buscar uma segunda opinião em medicina fetal?

Sempre que o diagnóstico gerou dúvida, quando laudos são contraditórios, quando a família foi orientada a considerar cirurgia fetal e quer entender melhor as opções — ou simplesmente quando é necessário mais tempo e clareza para tomar uma decisão difícil.

Quais são as sequelas da mielomeningocele?

As sequelas variam conforme o nível da lesão na coluna. Lesões mais altas tendem a causar maior comprometimento. As principais incluem: dificuldade ou impossibilidade de movimentar as pernas, alterações na sensibilidade dos membros inferiores, disfunção vesical (bexiga neurogênica) e intestinal, hidrocefalia — que pode exigir derivação ventricular — e deformidades ortopédicas como pé torto congênito. Muitas crianças com mielomeningocele levam uma vida ativa e funcional, especialmente quando acompanhadas por equipe multidisciplinar desde o nascimento.

Qual a expectativa de vida de uma criança com mielomeningocele?

Com os avanços no tratamento neurocirúrgico, urológico e ortopédico, a maioria das crianças com mielomeningocele chega à vida adulta. A expectativa de vida depende principalmente da gravidade da lesão, da presença de hidrocefalia e da qualidade do acompanhamento ao longo dos anos. Estudos mostram que mais de 75% dos pacientes atingem a idade adulta, e muitos alcançam independência funcional, estudam e trabalham normalmente. O fator mais importante é o acompanhamento multidisciplinar contínuo desde o nascimento.

Por que acontece a mielomeningocele?

A mielomeningocele acontece quando o tubo neural — estrutura que dará origem ao cérebro e à medula espinhal — não se fecha completamente entre a 3ª e a 4ª semana de gestação. Na grande maioria dos casos, não há uma causa única identificável. Trata-se de uma combinação de fatores genéticos, ambientais e nutricionais. A deficiência de ácido fólico é o fator de risco modificável mais bem estabelecido, mas o defeito pode ocorrer mesmo em gestações planejadas e com suplementação adequada. É importante que as mães saibam: não é algo que fizeram ou deixaram de fazer.

Referências

  1. Tulipan N, Hernanz-Schulman M, Bruner JP. Reduced hindbrain herniation after intrauterine myelomeningocele repair: a report of four cases. Pediatr Neurosurg. 1998;29:274–278.
  2. Adzick NS, Thom EA, Spong CY, et al. A randomized trial of prenatal versus postnatal repair of myelomeningocele. N Engl J Med. 2011;364(11):993-1004. (Estudo MOMS)
  3. Moron AF, Barbosa MM, Milani HJF, et al. Perinatal outcomes after open fetal surgery for myelomeningocele repair: a retrospective cohort study. BJOG. 2018;125(10):1280–1286.
  4. ISUOG — diretrizes de ultrassom morfológico fetal (consultar versão vigente).
  5. Ministério da Saúde (Brasil) — recomendações de suplementação de ácido fólico (consultar versão vigente).
Dr. Rafael Bruns
Dr. Rafael Bruns Gin. e Obstetrícia Medicina Fetal

Médico especialista em Medicina Fetal, com atuação em Curitiba e Porto Alegre. Realiza cirurgia fetal, ultrassonografia especializada, procedimentos invasivos como amniocentese e biópsia de vilo corial, além do acompanhamento de gestações de alto risco.

CRM-PR 18.582
RQE PR 12.169 · RQE PR 238
CRM-RS 58.559
RQE RS 45.076 · RQE RS 45.079

Conteúdo com finalidade educativa. Não substitui avaliação médica individualizada. Diagnóstico e tratamento dependem de consulta presencial ou por telemedicina.