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Hérnia diafragmática congênita: como o diagnóstico pré-natal é feito e o que ele muda
Medicina Fetal 14 min de leitura

Hérnia diafragmática congênita: como o diagnóstico pré-natal é feito e o que ele muda

Dr. Rafael Bruns
Dr. Rafael Bruns MÉDICO · CRM-PR 18.582 / CRM-RS 58.559
· 14 min de leitura

Medicina Fetal

Receber o diagnóstico de hérnia diafragmática congênita durante a gestação costuma acontecer de forma abrupta — em uma consulta de rotina, durante o ultrassom morfológico, o médico identifica algo que não deveria estar ali. O que vem a seguir é uma mistura de perguntas, medo e, muitas vezes, a sensação de que o tempo está correndo.

O ponto central: o diagnóstico pré-natal de HDC — por mais assustador que pareça — representa uma vantagem real no cuidado do bebê. Ele permite planejar o parto, reunir a equipe e discutir intervenção fetal quando indicada.
Hérnia diafragmática congênita: como o diagnóstico pré-natal é feito por ultrassom morfológico e o que ele muda no cuidado do bebê
Dr. Rafael Bruns realizando oclusão traqueal fetal por fetoscopia (procedimento FETO) para tratamento de hérnia diafragmática congênita — cirurgia minimamente invasiva que estimula o crescimento pulmonar do bebê antes do nascimento.

O que é a hérnia diafragmática congênita

A hérnia diafragmática congênita (HDC) é uma malformação em que o diafragma — o músculo que separa o tórax do abdome — não se forma completamente durante o desenvolvimento embrionário. Essa falha permite que órgãos abdominais, como intestino, estômago ou fígado, migrem para dentro do tórax e ocupem o espaço onde o pulmão deveria crescer.

O resultado é um pulmão que não se desenvolve como deveria — menor, com menos vasos e com capacidade funcional reduzida. Essa condição é chamada de hipoplasia pulmonar, e é ela — não o defeito no diafragma em si — que determina a gravidade do quadro.

A hérnia diafragmática congênita ocorre em aproximadamente 1 a cada 2.500–3.000 nascimentos. Na maioria dos casos (cerca de 80–85%), o defeito é do lado esquerdo, o que facilita um pouco o diagnóstico por ultrassom — já que o coração costuma ser deslocado para o lado direito. Hérnias do lado direito são menos frequentes, mas tendem a ser mais difíceis de diagnosticar e, em alguns cenários, mais graves.

Importante: a HDC não é causada por nada que a mãe tenha feito ou deixado de fazer. É um defeito que ocorre nas primeiras semanas de formação do embrião, geralmente entre a 4ª e a 8ª semana de gestação.

Como o diagnóstico pré-natal é feito

O diagnóstico de HDC pode surgir em diferentes momentos da gestação, dependendo do tipo de exame e da gravidade do caso.

Primeiro trimestre: sinais indiretos

Em alguns casos, a translucência nucal aumentada na ultrassonografia de primeiro trimestre pode levantar a suspeita — embora esse achado não seja específico de HDC. Ele funciona como um sinal de alerta para investigação adicional.

Segundo trimestre: o ultrassom morfológico

A maioria dos diagnósticos acontece durante o ultrassom morfológico, realizado entre 20 e 24 semanas. Os achados típicos incluem:

  • Presença de órgãos abdominais (estômago, alças intestinais) dentro do tórax fetal
  • Desvio do mediastino e do coração para o lado oposto
  • Ausência ou redução do tecido pulmonar visível
  • Poli-hidrâmnio (excesso de líquido amniótico) em fases mais avançadas

Quando o exame é feito por um especialista em medicina fetal, o diagnóstico costuma ser claro. Mas em exames de rotina, achados mais sutis — como uma hérnia do lado direito — podem passar despercebidos, o que reforça a importância de uma avaliação especializada quando há qualquer suspeita.

Exames complementares após o diagnóstico

Uma vez confirmada a HDC, o próximo passo é entender a extensão do problema. Isso exige uma investigação complementar que vai além do ultrassom inicial.

Ressonância magnética fetal

A ressonância magnética fetal permite medir o volume pulmonar com mais precisão, identificar quais órgãos estão no tórax e avaliar a posição do fígado. É especialmente útil quando o ultrassom não consegue definir com clareza a gravidade do caso.

Ecocardiograma fetal

A HDC pode estar associada a malformações cardíacas em até 10–15% dos casos. Além disso, a compressão do coração pelos órgãos deslocados pode alterar a hemodinâmica fetal. O ecocardiograma avalia a anatomia e a função cardíaca, e é fundamental para o planejamento do cuidado.

Investigação genética

Em muitos centros, recomenda-se a realização de amniocentése com microarray cromossômico ou exoma, especialmente quando há achados associados. A HDC isolada tem melhor prognóstico do que a HDC associada a alterações genéticas ou outras malformações.

Na prática: a investigação genética não muda o diagnóstico da HDC em si, mas pode mudar completamente o prognóstico e a tomada de decisão.

AVALIAÇÃO ESPECIALIZADA

Avaliação especializada em hérnia diafragmática congênita

Se o ultrassom identificou HDC e você quer entender a gravidade do caso, os próximos exames necessários e as opções disponíveis, solicite uma avaliação. Atendo em Curitiba, Porto Alegre e por telemedicina.

Como avaliar a gravidade: LHR, o/e LHR e posição do fígado

Nem toda HDC é igual. A gravidade depende de quanto o pulmão foi afetado — e existem ferramentas específicas para medir isso.

LHR e o/e LHR

O LHR (lung-to-head ratio) é a relação entre a área do pulmão contralateral (o lado não afetado) e a circunferência cefálica do feto. Como essa medida varia com a idade gestacional, utiliza-se o o/e LHR (observed-to-expected LHR) — que compara o valor encontrado com o esperado para aquela idade gestacional.

Na prática:

  • o/e LHR acima de 50%: prognóstico mais favorável
  • o/e LHR entre 25% e 50%: gravidade moderada a severa — zona em que a intervenção fetal pode ser discutida
  • o/e LHR abaixo de 25%: casos extremamente graves, com prognóstico reservado
Fígado no tórax (herniado)
Fígado no abdômen
 Melhora com balão

HDC esquerda (HDCE)

Sobrevida sem balão, por o/e LHR e posição do fígado

HDC direita (HDCD)

Sobrevida sem balão, por o/e LHR

Na HDC direita, o fígado está sempre no tórax.

Setas mostram melhora com balão (FETO) apenas nos grupos com fígado herniado — critério de inclusão nos estudos originais. Valor confirmado pelo texto: HDCE grave (o/e LHR <25%, fígado herniado): 24% → 49% com balão. HDCD: artigo confirma 17% → 42% para o/e LHR <45% como grupo único — subdivisões <30% e 30–45% são estimativas visuais da figura original (~). Demais valores estimados da Figura 2 — Van der Veeken et al., Gynecological Surgery 2018;15:9. Não usar para decisão clínica individual.


Posição do fígado

Quando o fígado migra para dentro do tórax (liver up), o prognóstico tende a ser pior, porque a compressão pulmonar é mais intensa. A posição do fígado é avaliada por ultrassom e confirmada por ressonância magnética fetal.

Esses parâmetros, analisados em conjunto, permitem classificar a gravidade do caso e orientar as decisões — desde o acompanhamento conservador até a discussão de intervenção fetal, como o procedimento FETO (oclusão traqueal endoscópica fetal).

Por que o diagnóstico pré-natal muda o que é possível

Quando a HDC é diagnosticada antes do nascimento, tudo muda. Não porque o diagnóstico em si resolva o problema — mas porque ele abre possibilidades que simplesmente não existem quando o bebê nasce sem preparo.

  • Parto planejado em centro com UTI neonatal preparada: o bebê com HDC precisa de suporte respiratório imediato ao nascer. Quando a equipe já sabe, tudo está pronto.
  • Equipe multidisciplinar reunida: neonatologista, cirurgião pediátrico, anestesista pediátrico, especialista em medicina fetal — todos alinhados.
  • Aconselhamento genético e apoio emocional: a família tem tempo para entender, processar e se preparar.
  • Discussão de intervenção fetal quando indicada: em casos graves, o procedimento FETO (fetoscopic endoluminal tracheal occlusion) pode ser discutido — uma técnica em que um balão é inserido na traqueia do feto para estimular o crescimento pulmonar.
Sem diagnóstico pré-natal: o bebê nasce em uma maternidade que pode não ter estrutura, a equipe não está preparada, e as primeiras horas — que são críticas — são perdidas em transferências e improvisos. O diagnóstico pré-natal não garante um desfecho perfeito, mas garante que o bebê tenha a melhor chance possível.
Quando buscar avaliação especializada em medicina fetal após diagnóstico de HDC:

  • O ultrassom morfológico identificou órgãos abdominais dentro do tórax fetal
  • O laudo menciona desvio do coração ou pulmões pequenos para a idade gestacional
  • O diagnóstico foi feito antes de 26 semanas (janela para discussão de intervenção fetal)
  • O médico mencionou herniação do fígado para o tórax
  • O LHR ou o/e LHR foram calculados e estão abaixo dos valores de referência
  • Há dúvida sobre a gravidade do caso ou sobre as opções disponíveis
  • Você recebeu laudos divergentes de diferentes serviços

Perguntas frequentes

A hérnia diafragmática congênita tem cura?

O defeito no diafragma é corrigido cirurgicamente após o nascimento. O prognóstico depende principalmente do grau de hipoplasia pulmonar e da presença de malformações associadas. Casos leves a moderados têm bons resultados. Casos graves exigem suporte intensivo e, em situações selecionadas, podem se beneficiar de intervenção fetal.
O diagnóstico pode ser feito no primeiro trimestre?

Em alguns casos, sinais indiretos como translucência nucal aumentada podem levantar a suspeita no primeiro trimestre. Mas o diagnóstico definitivo geralmente acontece no ultrassom morfológico, entre 20 e 24 semanas, quando a anatomia fetal é avaliada em detalhe.
O que é o o/e LHR e por que ele é importante?

O o/e LHR (observed-to-expected lung-to-head ratio) é a principal medida usada para avaliar a gravidade da HDC. Ele compara o tamanho do pulmão contralateral com o esperado para aquela idade gestacional. Quanto menor o valor, mais grave a hipoplasia pulmonar. É esse número que ajuda a equipe a definir prognóstico e discutir opções de tratamento.
O que é o procedimento FETO?

FETO (fetoscopic endoluminal tracheal occlusion) é um procedimento de cirurgia fetal em que um pequeno balão é inserido na traqueia do feto por fetoscopia, geralmente entre 27 e 30 semanas. O balão impede a saída do líquido pulmonar, estimulando o crescimento do pulmão. O balão é retirado algumas semanas depois. O estudo TOTAL Trial demonstrou benefício nos casos graves.
Todo caso de HDC precisa de cirurgia fetal?

Não. A maioria dos casos de HDC é tratada após o nascimento com cirurgia neonatal. O procedimento FETO é discutido apenas em casos graves (o/e LHR abaixo de determinados limiares), quando há evidência de que a intervenção pré-natal pode melhorar a sobrevida.
Onde o parto deve acontecer?

O parto deve ser planejado em um centro que tenha UTI neonatal com experiência em HDC, cirurgia pediátrica disponível e, idealmente, acesso a ECMO (oxigenação por membrana extracorpórea). O local do parto é uma das decisões mais importantes — e é justamente por isso que o diagnóstico pré-natal faz tanta diferença.
A HDC pode voltar a acontecer em outra gestação?

Quando a HDC é isolada e sem causa genética identificada, o risco de recorrência é baixo (em torno de 2%). Quando há uma síndrome genética associada, o risco pode ser maior e deve ser discutido com aconselhamento genético.
Posso fazer uma teleconsulta para revisar o caso?

Sim. A teleconsulta é um bom primeiro passo para revisar laudos, entender a gravidade e organizar os próximos passos — especialmente se você está em outra cidade. Com base na análise, definimos juntos se a avaliação presencial em Curitiba ou Porto Alegre é o caminho.

Referências

  1. Deprest JA, Nicolaides KH, Benachi A, et al. Randomized trial of fetal surgery for severe left diaphragmatic hernia. N Engl J Med. 2021;385(2):107-118.
  2. Jani J, Nicolaides KH, Keller RL, et al. Observed-to-expected lung area to head circumference ratio in the prediction of survival in fetuses with isolated diaphragmatic hernia. Ultrasound Obstet Gynecol. 2007;30(1):67-71.
  3. Ruano R, Yoshisaki CT, da Silva MM, et al. A randomized controlled trial of fetal endoscopic tracheal occlusion versus postnatal management of severe isolated congenital diaphragmatic hernia. Ultrasound Obstet Gynecol. 2012;39(1):20-27.
  4. Lazar DA, Ruano R, Olutoye OO, et al. Prenatal diagnosis and management of congenital diaphragmatic hernia. Semin Perinatol. 2014;38(3):170-178.
  5. EUROFOETUS Consortium. Prenatal evaluation and management of congenital diaphragmatic hernia. Prenat Diagn. 2022;42(6):715-728.

PRÓXIMO PASSO

Recebeu o diagnóstico de hérnia diafragmática congênita e precisa de orientação?

Avaliação presencial em Curitiba ou Porto Alegre, ou teleconsulta para revisar laudos e organizar os próximos passos.

Conteúdo com finalidade educativa. Não substitui avaliação médica individualizada. Diagnóstico e tratamento dependem de consulta presencial ou por telemedicina.

Dr. Rafael Bruns — Medicina Fetal

Dr. Rafael Bruns
Gin. e Obstetrícia
Medicina Fetal

Médico especialista em Medicina Fetal, com atuação em Curitiba e Porto Alegre. Realiza cirurgia fetal, ultrassonografia especializada, procedimentos invasivos como amniocentése e biópsia de vilo corial, além do acompanhamento de gestações de alto risco.

MÉDICO · CRM-PR 18.582
Ginecologia e Obstetrícia · RQE PR 12.169
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